As estruturas proteicas de grãos usados na produção se cerveja podem ser usadas na produção de uma alternativa ao couro animal que também não usa plástico, um material muito comum nos “couros” sintéticos. A descoberta veio da startup londrina Arda Biomaterials que buscou inspiração nas microcervejarias locais para criar um couro 100% vegetal.
O couro alternativo tem como matéria prima o “bagaço” da produção de cerveja ou uísque, e é feito a partir das proteínas vegetais dos grãos usados. Elas são reconstruídas para se tornarem mais semelhantes às proteínas animais.
O resultado é um material macio, flexível e durável como couro animal ou poliuretano sintético. Uma grande vantagem é que esse couro não precisa de aglutinantes ou revestimentos plásticos comuns em alternativas de origem vegetal feitas de micélio, celulose bacteriana ou fibras de resíduos vegetais.
“Somos uma das pouquíssimas soluções que permaneceram completamente livres de plástico”, disse Camelia Hamdi-Cherif, diretora comercial da Arda.
Segundo a Arda, a pegada de carbono do New Grain é 96% menor que a do couro bovino e 72% menor que a do couro sintético. O material é teoricamente biodegradável e está sendo testado de acordo com padrões estabelecidos.
“A classe intermediária de materiais feitos para substituir o couro e os sintéticos ainda depende da adição de diferentes aglutinantes ou revestimentos petroquímicos ou plásticos para funcionar, e isso meio que se tornou o padrão. Não vemos isso como uma solução a longo prazo, e os clientes dos setores têxtil e da moda também não”, acrescentou Camelia.
Resíduo que vira solução
Os fundadores Edward “TJ” Mitchell e Brett Cotten tiveram a ideia de usar um resíduo abundante da região enquanto experimentavam possíveis formulações de biomateriais na cozinha da casa de Mitchell.
O bagaço de malte é o subproduto úmido e de baixo valor que sobra da maceração do malte durante a produção de cerveja e geralmente acaba sendo usado como ração animal.
Como o material é rico em proteínas, Mitchell e Cotten concluíram que, desenvolvendo um método baseado em pesquisas recentes sobre a modificação de proteínas vegetais, poderiam transformá-lo em um produto de maior valor agregado.
O processo patenteado da Arda, específico para grãos usados na fermentação, é um tipo de “química verde” que envolve substâncias não tóxicas e não perigosas. Ele consiste em isolar e reconfigurar as moléculas de proteína vegetal dentro do grão, transformando-as em cadeias mais fortes.
“Basicamente, desenrolamos essas fibras em cadeias mais longas e as ligamos umas às outras, de modo que obtemos os componentes básicos para algo semelhante ao colágeno”, explica Hamdi-Cherif.
Nesse processo, a proteína líquida é extraída do grão e purificada de forma semelhante ao tratamento de proteínas vegetais para a criação de alternativas à carne. Em seguida, ela é misturada com diferentes ingredientes de base biológica que ajudam a recriar a textura macia do couro ou a estimular a formação de novas ligações entre as cadeias proteicas.
Pigmentos naturais são adicionados para colorir a pasta antes que ela seja colocada em bandejas com papel texturizado no fundo, para criar padrões de superfície semelhantes ao couro animal, como a textura de seixos. Depois de secas, as folhas são coladas a uma base têxtil natural.
Em escala ampliada, essa etapa seria realizada utilizando o processo de fabricação rolo a rolo, no qual o material é alimentado de um rolo para outro enquanto é seco e impresso. O processo é realizado com equipamentos disponíveis que já são usados na indústria cervejeira e na produção de poliuretano.
Ao combinar isso com o baixo custo da matéria-prima, a Arda acredita que o seu couro vegetal pode se tornar competitivo em termos de custo, quando comparado ao couro animal ou ao poliuretano padrão em larga escala.
“No processo em lote atual, o custo se aproxima de um couro animal de luxo”, disse Hamdi-Cherif. “Mas nossas projeções para o processo rolo a rolo indicam que conseguiremos custos unitários realmente competitivos, que podem substituir as alternativas sintéticas nos próximos três a quatro anos.”
Recentemente, a empresa demonstrou o potencial do seu material em uma parceria com a marca de acessórios BEEN London , que o utilizou para fabricar bolsas e capas para raquetes de tênis.
Hamdi-Cherif conta que a empresa está começando com carteiras, bolsas e acessórios similares e que, à medida que a tecnologia amadurece, pretende expandir para itens como calçados, interiores automotivos e móveis que exigem alto desempenho comprovado.
A Arda planeja um lançamento comercial limitado em 2026 e estabeleceu parcerias com a maior empresa de cerveja do mundo, a AB InBev , e com a maior empresa de uísque, a Diageo , para o uso de grãos e desenvolvimento de produtos.

