Issey Miyake cria móveis com papel reciclado
Artista japonês reaproveita resíduos da própria produção para criar móveis que exploram processos manuais inspirados na marcenaria tradicional
Artista japonês reaproveita resíduos da própria produção para criar móveis que exploram processos manuais inspirados na marcenaria tradicional
A grife Issey Miyake desenvolveu uma coleção de móveis artesanais a partir de rolos de papel comprimido, semelhantes a toras, que são reaproveitados da produção de suas peças de vestuário plissadas. Os protótipos integram a exposição The Paper Log: Shell and Core, apresentada na loja da marca em Milão durante a Semana de Design da cidade em abril. Com peças que variam entre bancos, cadeiras, mesas, a coleção foi criada a partir dos chamados “troncos de papel”, formados no processo de plissagem característico da marca. Nesse método, folhas de papel são intercaladas entre tecidos previamente cortados e costurados, que depois passam por uma máquina de plissagem responsável por dar forma às roupas com a modelagem singular da Issey Miyake.
A ideia de transformar esses rolos em mobiliário surgiu com o designer-chefe Satoshi Kondo após uma visita à fábrica da marca, com o objetivo de evitar que o material fosse reciclado ou descartado, como normalmente acontece. Inspirado na lógica da marcenaria, o papel passou a ser esculpido, serrado, descascado e até desenrolado para dar origem às peças. Em seguida, devido à sua capacidade de absorção, o material é embebido em cera ou colado para garantir estabilidade estrutural.
No centro da coleção estão dois bancos cilíndricos feitos à mão, que apresentam cortes transversais capazes de revelar um padrão marmorizado em espiral em cada extremidade. Essas peças, inclusive, foram utilizadas como assentos no desfile da coleção Primavera/Verão 2025 da marca em Paris. “As folhas de papel plissado, finíssimas como uma folha de papel, conferem aos protótipos de móveis uma textura singular que lembra madeira e pedra”, disse Kondo. “Devido à aleatoriedade na forma como as folhas são comprimidas no cilindro de papel, cada protótipo resultante é uma peça única e orgânica”, acrescentou o designer.

Além dos bancos, a coleção inclui uma poltrona robusta, construída a partir de folhas de papel reciclado organizadas para formar um assento com laterais caneladas e uma seção transversal com efeito marmorizado, apoiada sobre uma estrutura metálica. Segundo Kondo, o processo de criação foi altamente tátil e envolveu diferentes técnicas e ferramentas de corte. “Tentamos usar nossas próprias mãos, ferramentas como cinzeis,, machados de mão japoneses tradicionais, facas de artesanato robustas, serras elétricas e esmerilhadeiras”, disse ele. “Também usamos um cortador a jato de água.”. Embora o papel tenha uma tonalidade naturalmente neutra, as peças exibem uma variedade de cores resultantes da transferência de pigmentos dos tecidos durante o processo de plissagem. “Devido ao calor e à pressão do plissado, as cores dos tecidos e as silhuetas das roupas transferem-se para os lençois, deixando marcas pálidas das peças”, explicou o artista.
A coleção é completada por uma cadeira de jantar, uma mesa, uma mesa lateral e um banco, todos produzidos com papel reciclado e exibidos na loja da marca. “Elas transmitem uma sensação de beleza não intencional”, disse o designer. “A rusticidade encontrada em arranjos aleatórios de manchas de cores, fitas adesivas, montes de lençois, tudo isso são lembranças do processo de pregas”. Como parte da exposição, o escritório de arquitetura espanhol Ensamble Studio também apresenta uma série de esculturas plissadas feitas com rolos de papel. Cada obra foi esculpida a partir de resíduos e solidificada com agentes endurecedores, capazes de preservar pregas, rugas e vincos. O nome da mostra faz referência ao mobiliário, considerado o “núcleo”, e às esculturas, que evocam a “casca” mais delicada.