Combustíveis fósseis, financiamento e florestas: prioridades da COP30
Líderes mundiais definem prioridades da COP30 em Belém; fique por dentro do que rolou na Cúpula do Clima
Líderes mundiais definem prioridades da COP30 em Belém; fique por dentro do que rolou na Cúpula do Clima
Líderes mundiais se reuniram na última semana em Belém, porta de entrada da Amazônia, antes da Cúpula da COP30, reafirmando seu compromisso com a cooperação climática global. Entre as principais prioridades definidas para as negociações deste ano estão: combustíveis fósseis, financiamento climático e proteção das florestas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu o tom ambicioso da agenda da COP30, conclamando os líderes globais a estabelecer um roteiro mundial para encerrar a dependência dos combustíveis fósseis e cumprir os compromissos internacionais de triplicar a capacidade de energia renovável e dobrar a eficiência energética até 2030. Lula afirmou que é essencial que os países deixem Belém com NDCs alinhadas à meta de 1,5°C firmada em Dubai. Ele também lançou o Compromisso de Belém, que prevê quadruplicar o uso de combustíveis sustentáveis até 2035, e destacou a necessidade de adotar mecanismos de troca de dívida por clima para apoiar países em desenvolvimento.
“O mundo precisa de um roteiro claro para acabar com sua dependência dos combustíveis fósseis. É hora de diversificar nossas matrizes energéticas, expandir as fontes renováveis e acelerar a produção e o uso de combustíveis sustentáveis”, afirmou Lula. Para Cláudio Ângelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima (Brasil), “o sinal político do discurso de Lula é muito positivo, ao colocar na mesa o que deve ser o tema central da COP — implementar a decisão de Dubai de abandonar os combustíveis fósseis. Sabemos que será difícil avançar nesse tema, mas uma COP que não fala de fósseis falha em seu propósito. As palavras importam — e Lula, como anfitrião, deu à presidência brasileira o mandato político de que precisava.”

A newsletter do Observatório do Clima, da última semana, ressalta o fato de Lula ter usado o termo “superar a dependência” dos fósseis no lugar de “transitar para longe” (transition away from), usado em Dubai. Seria uma mensagem mais enfática de trazer estes que são responsáveis por cerca de 90% de todas as emissões de carbono geradas pelo ser humano, alimentando o aquecimento global, a acidificação dos oceanos e eventos climáticos extremos.
Para além dos combustíveis fósseis, foi marcante o Brasil o lançamento oficial do Tropical Forest Forever Facility (TFFF), com capital inicial superior a US$ 5,5 bilhões. As maiores contribuições vieram da Noruega (US$ 3 bilhões em dez anos), França (US$ 500 milhões), Brasil (US$ 1 bilhão) e Indonésia (US$ 1 bilhão). O bilionário australiano Andrew Forrest tornou-se o primeiro investidor filantrópico, com uma doação de US$ 10 milhões. A Alemanha anunciou uma contribuição significativa, mas ainda não divulgou valores, enquanto o Reino Unido ficou de fora ao decidir não investir. Outras contribuições são esperadas ao longo do próximo ano.

Brasil e Azerbaijão também divulgaram o Baku to Belém Roadmap — um plano para mobilizar pelo menos US$ 1,3 trilhão em financiamento climático até 2035. Trata-se de uma lista extensa de ações, mas ambas as presidências ressaltaram que seu papel se limita a propor, e não a aprovar o plano. Observadores alertaram que isso pode acabar se tornando “apenas mais um relatório”.
Um marco desta cúpula foi a Declaração de Belém sobre o Combate ao Racismo Ambiental, a primeira iniciativa internacional a vincular formalmente justiça racial e ação climática em um mesmo marco. Assinada antes da COP30, ela reconhece o racismo ambiental como um desafio global enraizado em legados coloniais e desigualdades estruturais, e conclama todas as nações a enfrentar os impactos desproporcionais da crise climática e da poluição sobre comunidades afrodescendentes, indígenas e locais. A declaração coloca a justiça racial e a justiça ambiental como pilares inseparáveis do desenvolvimento sustentável e abre caminho para uma futura resolução da ONU sobre o tema.
À medida que os impactos e os custos da inação continuam a crescer, temas como adaptação, financiamento climático e o déficit de ambição deixado pelos grandes emissores em seus planos nacionais dominaram as intervenções dos líderes. Ao longo desta e da próxima semana, negociadores e a presidência da COP terão de enfrentar essas prioridades tanto nas negociações formais — incluindo a Meta Global de Adaptação e a Transição Justa — quanto na agenda mais ampla de ações da presidência.
Na Cúpula do Clima, entre os líderes presentes estavam o presidente Emmanuel Macron (França), o presidente Cyril Ramaphosa (África do Sul), o primeiro-ministro Keir Starmer e o príncipe William (Reino Unido), a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, o presidente do Conselho Europeu António Costa e o primeiro-ministro Jonas Gahr Støre (Noruega).