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SOS Oceano: ONGs se unem pela proteção do oceano no Brasil

Coalizão pede expansão de áreas marinhas protegidas para que o país alcance a meta global de 30% do oceano protegido até 2030

Published 23/10/2025
peixes

Cardume de peixes nas águas de Fernando de Noronha. Foto: Fábio Borges

Na semana em que o Governo brasileiro concede autorização à Petrobras para perfuração do primeiro poço exploratório na Foz do Amazonas, uma coalizão formada pelas mais importantes organizações nacionais dedicadas à conservação marinha e costeira lança a aliança SOS Oceano e alerta que “Sem azul não há verde”.

A iniciativa reúne organizações como a Sea Shepherd Brasil, Rede Pró-UC, Divers for Sharks, Seaspiracy Foundation,  apoiadas pela Blue Marine Foundation. O objetivo é unir esforços para a ampliação das Unidades de Conservação marinhas e costeiras, fortalecimento das áreas protegidas já existentes e mobilização da sociedade em defesa da proteção efetiva dessas áreas, fundamentais para a vida no Oceano.

“Proteger o oceano não é uma opção, é uma necessidade. Sem mares saudáveis, não há equilíbrio climático, nem futuro sustentável. O Brasil, com sua vasta costa e biodiversidade, tem papel estratégico e uma responsabilidade global – e a SOS Oceano representa um passo decisivo nessa direção”, ressalta Paul Watson, fundador da Sea Shepherd e embaixador da SOS Ocean.

Foto: Arquivo NEMA

A Foz do Amazonas está entre as áreas prioritárias para proteção marinha defendidas pela aliança. A recente decisão do Ibama, tomada mesmo diante de pareceres técnicos que apontavam lacunas nos planos de mitigação de impactos e proteção à fauna, evidencia a urgência de políticas robustas de conservação oceânica no país. Além da Foz, a aliança também destaca a necessidade de fortalecer a proteção de outras regiões sensíveis, como o Mosaico do Albardão (RS) e Fernando de Noronha (PE), reconhecidas por sua biodiversidade e importância ecológica estratégica.

A SOS Oceano busca contribuir para que o Brasil cumpra a meta internacional estabelecida no Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, que prevê a proteção de 30% do oceano até 2030. A iniciativa defende que pelo menos 10% dessas áreas sejam de proteção integral, as chamadas áreas no-take, fundamentais para a recuperação dos ecossistemas, a preservação da biodiversidade marinha e a manutenção dos serviços ambientais que sustentam a vida no planeta.

Além disso, a aliança apoia a criação de áreas de uso sustentável em zonas costeiras – regiões essenciais para a sobrevivência e o sustento das populações tradicionais, mas que hoje enfrentam intensa pressão do turismo predatório, da pesca excessiva e da especulação imobiliária.

Foto: Fábio Borges

De acordo com dados do ICMBio e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o Brasil possui, atualmente, 233 Unidades de Conservação (UCs) costeiras e marinhas – o equivalente a 26,4% de sua área marinha total. Em 2018, essa cobertura era de apenas 1,5%. Apesar do avanço significativo, esse percentual ainda não garante a proteção efetiva necessária para a preservação dos ecossistemas marinhos, já que apenas uma fração dessas áreas está sob regime de proteção integral.

Mesmo para as áreas de uso sustentável, esse percentual é visto com cuidado, pois a maior parte das UCs está concentrada em duas APAs oceânicas (São Pedro e São Paulo, em PE, e Trindade e Martim Vaz, a 1.200 km da Costa do Espírito Santo).

“A meta de 30% precisa representar proteção real. Não podemos cair na armadilha do blue washing, quando se cria ou amplia áreas marinhas sem garantir gestão, recursos ou fiscalização. É fundamental que essas áreas tenham proteção efetiva e total, capazes de manter a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos que sustentam a vida no planeta. Para isso, é indispensável ampliar a criação de zonas no take – áreas onde não se permite nenhum tipo de exploração de recursos naturais –, pois são essas regiões que realmente asseguram a recuperação dos ecossistemas marinhos”, destaca Angela Kuczach, articuladora da aliança e diretora-executiva da Rede Pró-UC.

Foto: Arquivo NEMA

Fazem parte da aliança as organizações Sea Shepherd Brasil, Rede Pró-UC, Instituto Baleia Jubarte, Divers for Sharks, Seaspiracy Foundation, Blue Marine Foundation, Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (NEMA), Projeto Golfinho Rotador, entre outras comprometidas com a conservação marinha e costeira. O lançamento será realizado no Museu do Amanhã (RJ), durante a Rio Ocean Week.

“Sem azul não há verde”

A campanha “Bandeira sem vida”, criada pela agência Droga5, marca o lançamento da aliança SOS Oceano e traz como mensagem a interdependência entre o oceano e as florestas para o equilíbrio climático global. A campanha usa a imagem da bandeira do Brasil sem as cores azul e verde e, no lugar de “Ordem e Progresso”, o slogan “Sem azul não há verde”, para sensibilizar a sociedade de que se não protegermos o oceano, as florestas deixarão de existir com toda a sua biodiversidade e os serviços ecossistêmicos que elas proveem.

“A aliança SOS Oceano atua para apoiar, de todas as formas possíveis, o poder público e as comunidades que vivem dentro ou no entorno dessas áreas, fortalecendo a compreensão sobre a importância e a boa gestão das Unidades de Conservação”, explica –José Martins, oceanógrafo e coordenador do projeto Golfinho Rotador.

Foto: Fábio Borges

Agenda Azul na COP30

Às vésperas da COP30, a proteção do oceano ainda carece de protagonismo na agenda climática brasileira. Segundo a aliança SOS Oceano, o país não tem dedicado a devida atenção à agenda azul, quando se trata de Unidades de Conservação, e o assunto segue com baixa representatividade nos debates e sem espaço relevante na programação oficial da Conferência Global do Clima da ONU, que acontece no próximo mês em Belém (PA).

O oceano desempenha um papel importante como regulador do clima no planeta, absorvendo cerca de 38 trilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂), segundo estimativas de diversos estudos científicos. Além disso, é responsável por aproximadamente 85% do oxigênio que respiramos e abriga ecossistemas essenciais à vida no planeta.

Entretanto, o fundo do mar vem sofrendo taxas de degradação até 50 vezes maiores que as registradas nas florestas terrestres, o que revela a urgência em proteger esses ambientes naturais. A saúde do oceano está diretamente ligada à manutenção do equilíbrio climático e à sobrevivência das florestas, demonstrando que a conservação marinha é também uma ação essencial para o enfrentamento da crise climática.

Foto: Fábio Borges

Áreas prioritárias – e urgentes!

O ICMBio mapeou cerca de 60 áreas prioritárias para a conservação marinha, das quais dez estão atualmente em processo de criação de novas unidades de conservação. Um avanço importante, mas ainda insuficiente diante da necessidade e urgência de ampliar a governança e a proteção dos ambientes costeiros e marinhos.

“A ampliação das áreas marinhas protegidas é uma necessidade urgente – não só no Brasil, mas em todo o mundo. O Brasil precisa ampliar suas áreas marinhas protegidas até atingir, no mínimo, 30% de territórios efetivamente protegidos”, afirma Alexander Turra, professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP) e coordenador da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano.

A aliança identificou áreas estratégicas para atuação imediata que concentram altos índices de biodiversidade e vulnerabilidade ambiental, abrangendo recifes, manguezais, bancos de corais, arquipélagos oceânicos e zonas estuarinas do litoral norte ao extremo sul do país. O objetivo é dar visibilidade aos desafios enfrentados nessas regiões e exigir o compromisso do Governo Federal na proteção desses ecossistemas únicos.

Foto: Arquivo NEMA

Regiões críticas para a saúde e resiliência do oceano brasileiro, segundo a SOS Oceano:

Ação global pelo oceano

O oceano e as zonas costeiras são fundamentais para a regulação do clima, a manutenção da biodiversidade, a produção de alimentos e o sustento de milhões de pessoas. Contudo, enfrentam ameaças crescentes como poluição plástica e química, sobrepesca, urbanização desordenada e os efeitos das mudanças climáticas, como elevação do nível do mar e acidificação das águas.

“Evidências científicas mostram que a criação de áreas marinhas de alta proteção gera resultados concretos para a recuperação dos ecossistemas oceânicos. Quando bem planejadas e efetivamente implementadas, essas áreas aumentam a biomassa, fortalecem os estoques pesqueiros e ampliam a resiliência dos oceanos diante das mudanças climáticas. O Brasil tem uma oportunidade única de liderar o Atlântico Sul ao criar áreas marinhas protegidas que integrem a conservação da biodiversidade com a sustentabilidade econômica de longo prazo”, diz Maximiliano Bello, especialista em política oceânica internacional da Blue Marine Foundation.

Foto: Fábio Borges

Sobre a SOS Oceano

A SOS Oceano é uma aliança colaborativa formada por organizações da sociedade civil dedicadas à conservação marinha e costeira no Brasil. Seu objetivo é fortalecer a proteção do oceano, promover a integridade ecológica dos ecossistemas marinhos e mobilizar a sociedade em torno de uma agenda azul justa e inclusiva.

A coalizão atua de forma integrada, desenvolvendo campanhas conjuntas, ações de advocacy, educação ambiental para garantir a proteção efetiva das áreas costeiras e oceânicas. A iniciativa está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 14 – Vida na Água) e às metas do Marco Global de Biodiversidade, fortalecendo a cooperação entre ciência, gestão pública e comunidades locais.

Foto: Fábio Borges
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