Imagens de coelhos sendo pisoteados. Pintinhos sendo mortos. Violência contra outras espécies de animais. Parece um filme de terror, mas infelizmente, é um caso real. Essas são cenas de uma mulher que torturava e matava animais para vender fotos e vídeos pela internet.
Após denúncias do Fórum Animal (Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal), ela foi presa na última quinta-feira (28) pela Polícia Civil de São Paulo, na região central da capital do estado. Daiana Schuinsekel de Almeida foi presa como resultado de investigações que apontaram que ela gravava conteúdos de extrema crueldade contra animais, para vendê-los através de plataformas virtuais utilizadas por clientes na Europa.
A operação foi realizada pela Delegacia de Crimes contra os Animais, do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), após denúncia encaminhada pelo Fórum Animal, que colaborou com as autoridades no fornecimento de informações para a investigação.
“Hoje, nós tivemos esta ação policial que partiu de uma denúncia feita pelo Fórum Animal. É importante que essa mulher e os demais torturadores de animais em todo o Brasil sejam presos, julgados e condenados. As imagens são pesadas”, disse a diretora jurídica do Fórum Animal, Ana Paula Vasconcelos.
Zoosadismo
A mulher foi reconhecida por conta de uma tatuagem nas pernas. A polícia aponta que Daiana vai responder pelos crimes de maus-tratos, zoosadismo e comercialização de vídeos de violência.
“É terrível saber que há grupos criminosos que lucram com o sofrimento e morte de animais, vendendo vídeos e fotos na internet. Reforçamos a importância da atuação integrada entre organizações de proteção animal e autoridades públicas no combate a crimes dessa natureza, considerados de altíssima gravidade”, pondera a diretora jurídica.
Durante o cumprimento do mandado de prisão, os agentes apreenderam objetos que teriam sido utilizados nos crimes, incluindo calçados usados nos vídeos.
Até o momento, não foram encontrados animais no local da prisão.
Relembre outros casos
O caso surge na esteira de outra operação policial, realizada em novembro de 2025, em Belém, capital do Pará. Na época, o Fórum Animal enviou representação à Polícia Federal e ao IBAMA, encaminhando imagens e demais informações necessárias para subsidiar a investigação contra uma mulher que praticava crimes semelhantes aos de Daiana.
O caso anterior revelou a existência de um mercado clandestino voltado à venda de conteúdos de violência extrema contra animais na deep e dark web, evidenciando a atuação de grupos criminosos organizados e a dimensão internacional desse tipo de crime.
Após um trabalho minucioso, a Polícia Federal identificou a suspeita em Belém e requereu sua prisão preventiva, além da realização de diligências essenciais para a elucidação completa dos fatos. O caso teve ampla repercussão, e a suspeita foi presa.
Campanha “Animal Safety”
A prisão da mulher reforçou a urgência da campanha global “Animal Safety”, lançada pelo Instituto Ampara Animal para pressionar plataformas digitais e autoridades públicas a combater crimes de crueldade animal em ambientes virtuais.
Para os organizadores da campanha Animal Safety, o episódio confirma o crescimento de uma estrutura criminosa já monitorada por autoridades brasileiras e internacionais, envolvendo transmissões ao vivo de tortura, grupos organizados em plataformas digitais e comercialização de conteúdo violento em aplicativos, redes sociais e ambientes da deep web.
“O caso mostra que a crueldade contra animais deixou de ser um problema isolado. Existe hoje uma rede estruturada que lucra com violência extrema na internet. A campanha Animal Safety nasce justamente para enfrentar esse cenário e pressionar plataformas e autoridades a tratarem esse tema como prioridade”, afirma Juliana Camargo, presidente do Instituto Ampara Animal.
Dados do Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD), da Polícia Civil de São Paulo, apontam que entre 10 e 15 animais são mortos ou submetidos a violência extrema por noite em transmissões monitoradas pelas autoridades, especialmente em servidores privados no Discord e grupos fechados em aplicativos de mensagens.
As investigações da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) também relacionam esses grupos a crimes como indução à automutilação, incentivo ao suicídio, exploração sexual de adolescentes, estupro virtual e apologia à violência extrema. Segundo os investigadores, o sofrimento animal frequentemente é utilizado como mecanismo de dessensibilização dentro dessas comunidades digitais.
A campanha Animal Safety foi criada para mobilizar organizações, especialistas, ativistas e cidadãos em diferentes países em defesa de medidas mais rígidas contra conteúdos de crueldade animal na internet. Entre as ações da campanha estão o lançamento de uma petição internacional, a articulação de mudanças legislativas e a formação de uma coalizão com entidades internacionais que atuam no enfrentamento à violência online contra animais.
Como parte da estratégia institucional, os organizadores concluíram a redação de um Projeto de Lei voltado ao enfrentamento de crimes digitais envolvendo maus-tratos contra animais. A proposta busca ampliar o debate legislativo sobre responsabilização das plataformas digitais e fortalecimento das investigações relacionadas à violência animal em ambientes virtuais.
A campanha também anunciou parceria com a Social Media Animal Cruelty Coalition (SMACC), organização internacional que monitora conteúdos de violência contra animais nas plataformas digitais. Em levantamento recente, a coalizão identificou mais de 83 mil links contendo material de crueldade animal publicados em grandes plataformas online.
Segundo a delegada Lisandréa Salvariego, do NOAD, a violência contra animais nesses ambientes digitais funciona como porta de entrada para crimes ainda mais graves. “Os maus-tratos são a porta de entrada para outros crimes”, afirmou a delegada em entrevistas recentes sobre as investigações conduzidas pela Polícia Civil paulista.
Com alcance internacional, a campanha Animal Safety pretende ampliar a pressão pública para que empresas de tecnologia adotem mecanismos mais rápidos de identificação, remoção e denúncia de conteúdos violentos, além de fortalecer a cooperação entre plataformas digitais e autoridades policiais.
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