Às vésperas da COP da Amazônia, o Cerrado sofre com desmatamento legal e sub-representação no Congresso. Bioma amarga a falta de políticas públicas capazes de unir conservação e produção em áreas privadas, que já ocupam quase 60% dos remanescentes de vegetação nativa.
A Conferência do Clima das Nações Unidas, COP30, que será em novembro, em Belém, traz a Amazônia para o centro da discussão global sobre o clima, mas não pode deixar de fora debates e propostas sobre o Cerrado, alerta um policy brief desenvolvido por cientistas do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). Com o avanço do desmatamento, o bioma necessita cada vez mais de soluções adaptadas à realidade da savana, destacam os pesquisadores.
Apesar de ser “a savana mais biodiversa do planeta e concentrar 60% da produção agrícola brasileira”, o Cerrado segue sub-representado nas políticas nacionais e na agenda climática internacional. Atualmente, dos mais de 30 mil Projetos de Lei, Emendas Constitucionais e Medidas Provisórias em tramitação na Câmara dos Deputados, apenas oito tratam da proteção ou da criação de áreas de conservação específicas para o bioma.
De acordo com o Código Florestal Brasileiro, o percentual de Reserva Legal é de 20% para propriedades no Cerrado; e de 35% para áreas de Cerrado localizadas na Amazônia Legal. Na prática, isso significa que, embora cerca de 45% da área total das propriedades privadas ainda esteja coberta por vegetação nativa, até 31 milhões de hectares, equivalente à área da Polônia ou sete vezes a área do Estado do Rio de Janeiro, permanecem passíveis de desmatamento legal.
“As vegetações savânicas e campestres são historicamente negligenciadas e o seu fortalecimento e inclusão no escopo das legislações anti-desmatamento, nacionais e internacionais, são fundamentais para regular o clima e manter os ciclos hidrológicos no Cerrado. Sem isso, a própria competitividade do agronegócio brasileiro pode ser posta em xeque no longo prazo, ameaçando setores chave da economia e aumentando o risco de insegurança hídrica e alimentar”, relembra Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e um dos autores do policy brief.
Desde 1985, segundo dados da Rede MapBiomas, da qual o IPAM faz parte, o Cerrado perdeu 40 milhões de hectares de vegetação nativa, tornando-se um dos principais vetores das emissões brasileiras de gases de efeito estufa. As áreas rurais privadas concentraram 72% de todo o desmatamento do bioma no período, que já acumula mais de 14 milhões de hectares de pastagens degradadas, um indicativo do uso pouco eficiente da terra.
No mesmo período, quase metade do bioma já foi queimada pelo menos uma vez, superando a marca de 89 milhões de hectares atingidos pelo fogo. Apenas em 2024, foram mais de 9,7 milhões de hectares atingidos pelas queimadas, uma área superior à do estado de Santa Catarina. Já em 2025, mesmo no início do período mais intenso de incêndios, o fogo já havia atingido 1,2 milhão de hectares. Os dados do MapBiomas também apontam que o uso recorrente do fogo é responsável por 58% da área queimada em propriedades privadas.
“Juntos, a Amazônia e o Cerrado responderam por 83% do desmatamento em 2024, sendo que o Cerrado responde por mais da metade de todo o desmatamento do país. São ecossistemas interdependentes, que precisam ser considerados em conjunto nas políticas de mitigação e adaptação. Espera-se que a COP seja um instrumento que amplifique essa interdependência e ajude a construir soluções para a savana mais biodiversidade do planeta”, completa Conciani.
Políticas de conservação
Como medida importante para a proteção dos remanescentes de vegetação nativa no bioma, o policy brief sugere a implementação de políticas de pagamento por serviços ambientais, com foco em estimular a conservação de áreas e combater o desmatamento legal. Linhas de crédito específicas para a intensificação da produção, que desestimulem a abertura de novas áreas, além do fortalecimento da Política Nacional de PSA (Lei 14.119/2021), poderiam criar um ambiente propício para investimentos públicos e privados em conservação, acelerando a transição para uma economia rural mais sustentável, defendem os pesquisadores.
Programas como o Conserv, mecanismo financeiro criado pelo IPAM que remunera produtores rurais da Amazônia Legal pela manutenção de áreas de vegetação nativa além do exigido pelo Código Florestal e que poderiam ser legalmente desmatadas, têm apresentado resultados promissores na redução do desmatamento legal. Mesmo após o fim dos pagamentos da primeira etapa do programa, produtores seguem preservando áreas para além do exigido por lei. Desde 2020, o projeto já assinou 32 contratos com proprietários rurais e empresas nos Estados de Mato Grosso, Pará e Maranhão. No total, mais de 27 mil hectares de vegetação além da Reserva Legal foram protegidos, evitando a emissão de mais de 2 milhões de toneladas de CO₂ e contribuindo para serviços ecossistêmicos essenciais à produção agrícola, como o regime de chuvas e a previsibilidade climática.
Mobilização em Brasília
Nesta quinta-feira (11 de setembro), Dia Nacional do Cerrado, o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) lança em Brasília a série de curtas documentais “Cerrado, Coração das Águas”. O projeto, que integra campanha homônima, busca dar visibilidade a um bioma vital para o equilíbrio climático, mas ainda pouco considerado em políticas e debates internacionais.
O Cerrado é berço de oito das doze maiores bacias hidrográficas da América do Sul, incluindo São Francisco, Tocantins‑Araguaia, Xingu, Paraguai e Parnaíba. Mesmo assim, já perdeu mais de 50% de sua vegetação nativa, e até 80% de cada propriedade pode ser legalmente desmatada. Pesquisas indicam que, mantido o ritmo atual, a vazão dos rios pode cair 34% até 2050, afetando diretamente energia, abastecimento urbano e produção de alimentos.
“Não dá para pensar na preservação do Cerrado sem pensar, em paralelo, na preservação da Amazônia. Os dois biomas ocupam áreas importantes do território brasileiro e são alvo da expansão predatória de modelos socioeconômicos pouco sustentáveis”, afirma Isabel Figueiredo, coordenadora do Programa Cerrado no ISPN.
A série “Cerrado: Coração das Águas” transporta o espectador por uma viagem pelas águas que ligam o Cerrado à Amazônia, Pantanal, Caatinga e Mata Atlântica, desde as nascentes até o encontro com grandes rios. Por meio dos relatos de povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, os filmes revelam tanto a força desse sistema natural quanto as ameaças que colocam em risco modos de vida que historicamente protegem a natureza.
Além dos filmes, a campanha promove intervenções artísticas urbanas em Brasília: a colagem de lambe‑lambes na passagem subterrânea conhecida como tesourinha da 213/214 Norte, na Asa Norte e a “bazuca poética”, projeção de frases luminosas durante o Encontro e Feira dos Povos do Cerrado.
Após o lançamento em Brasília, a série segue viagem: no dia 15 de setembro, será exibida no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, na Casa Cavaleiro de Jorge, em Alto Paraíso (GO). O evento é referência na valorização de saberes populares e práticas culturais ligadas à natureza, ampliando o alcance da campanha para além da capital.
“Os filmes, as intervenções artísticas e a presença em grandes eventos não falam apenas com especialistas, mas com toda a sociedade. Queremos sensibilizar tanto quem vive no Cerrado quanto quem depende de suas águas em outras regiões”, diz Isabel.
A mobilização segue até novembro, quando o Brasil sedia a COP30, em Belém. O objetivo do ISPN e organizações parceiras é garantir que o Cerrado seja incluído na agenda internacional de clima e justiça socioambiental. A campanha é uma iniciativa em rede liderada pelo ISPN em parceria com o Instituto Cerrados, WWF‑Brasil, Rede Cerrado, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e Funatura.
Povos do Cerrado
O potencial aquífero do bioma será destaque no XI Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, que está sendo realizado no Eixo Cultural Ibero‑Americano, antiga Funarte, em Brasília (DF), até o dia 13 de setembro.
A secretária executiva da Rede Cerrado, Ingrid Silveira, destaca que os recursos hídricos do bioma fazem do Cerrado o coração ecológico do Brasil. “Esses recursos hídricos sustentam a produção de alimentos, geram energia, recarregam aquíferos vitais e ajudam na regulação do clima. No momento, esse coração pulsa sob diversas ameaças. Lutamos diariamente contra o avanço do desmatamento, o envenenamento da terra e das águas por agrotóxicos, conflitos territoriais e degradação da biodiversidade.”
Realizado desde 2001, o Encontro e Feira dos Povos do Cerrado se consolidou como um instrumento fundamental de valorização e de fortalecimento da cultura tradicional brasileira e de ativismo ambiental. É uma oportunidade singular de unir, na capital do Brasil, povos de todos os estados e territórios para dar visibilidade à importância que o bioma representa para a mitigação das mudanças climáticas, para a agricultura de baixo carbono e para a valorização da produção sustentável.
O evento é um grande espaço de troca de experiências e articulações em defesa do bioma e da garantia de direitos de seus povos e comunidades ancestrais e tradicionais. O encontro reúne representantes de povos indígenas, quilombolas, de 22 segmentos diferentes de povos e comunidades tradicionais, além de extrativistas, assentados, agricultores familiares, socioambientalistas, academia e pesquisa, representantes de instituições públicas e privadas, entre tantos outros defensores do Cerrado. Ao todo, para os quatro dias de evento, são esperadas cerca de 10 mil pessoas.
Para saber mais: cerrado.org.br/cerrado–
Cerrado na COP
O Cerrado corre o risco de ser deixado de fora da agenda climática mesmo sendo a savana mais biodiversa do planeta e concentrar 60% da produção agrícola brasileira. A urgência de proteger, regulamentar, remunerar conservação e decisão política se impõe. A ciência, a cultura, as políticas públicas e a sociedade civil precisam convergir para que o Cerrado deixe de ser apenas tema periférico e passe a ocupar o lugar que merece: de protagonista na preservação ambiental, na regulação climática e na justiça socioambiental.

