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Brasil em chamas: o que se sabe sobre os incêndios até agora

Seca severa, expansão do desmatamento e a necessidade de ações mais rigorosas; confira na matéria

Published 05/09/2024
incêndios Pantanal

Foto: Joédson Alves | Agência Brasil

O Brasil iniciou setembro com um preocupante total de 154 mil focos de calor registrados este ano, de acordo com dados do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A Amazônia concentra o maior número de focos de incêndio -, uma crise que ganhou destaque nas últimas semanas quando a fumaça espalhou-se de Norte a Sul e escureceu o céu em diversas regiões.

A Amazônia enfrenta uma seca histórica e um recorde de queimadas. A combinação de temperaturas elevadas, chuvas abaixo da média e um ano de 2023 extremamente seco projeta cenários sombrios para os próximos meses. O mesmo ocorreu recentemente no Pantanal e somou-se aos incêndios no interior do estado de São Paulo.

Agosto de 2024: brigadistas do Instituto Brasília Ambiental e Bombeiros do Distrito Federal combatem incêndio em área de cerrado próxima ao aeroporto de Brasília. | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A estiagem tem exacerbado a atual temporada de incêndios na Amazônia e no Pantanal. Segundo o INPE, agosto foi o mês mais devastador desde 2005, com 38.266 focos de incêndio registrados. O estado do Pará lidera em ocorrências, com 13.803 registros, seguido pelo Amazonas (10.328) e Mato Grosso (7.046).

No entanto, a seca é apenas um agravante. O fogo na floresta está diretamente relacionado à expansão do desmatamento, especialmente no sul da Amazônia. “O desmatamento é caro. O fogo é muito mais barato, é só comprar gasolina e sair espalhando”, afirmou Rodrigo Agostinho, presidente do IBAMA, à Agência Pública.

Para o Climainfo, sensação de impunidade também contribui para a escalada dos incêndios, como evidenciado pela investigação da Polícia Federal do “Dia do Fogo”, que terminou sem indiciamentos.

Área queimada em Alter do Chão. Foto: João Marcos Rosa | Nitro

O “dia do fogo” é como ficou conhecido o dia 10 de agosto de 2019, quando foi ateado fogo em mais de 470 propriedades rurais na Amazônia. A Agência Pública apurou que os responsáveis pelos crimes permanecem impunes até hoje e um levantamento do Greenpeace constatou que, passado cinco anos, tais fazendas não só seguem com altos índices de desmatamento e queimadas recorrentes como algumas delas obtiveram financiamento por meio de recursos do crédito rural.

Causas e responsabilidade: o que se sabe

Os incêndios florestais podem ter causas naturais ou humanas. Os incêndios naturais, causados por raios, são relativamente raros e menos preocupantes, pois geralmente ocorrem em época de chuva e são facilmente controlados. Ou seja, a ação humana ainda é a maior responsável pelos incêndios florestais, seja de forma intencional ou por negligência.

Seca que afetou a Amazônia em 2023 causou a maior queda nos níveis dos rios já registrada. | Foto: Marizilda Crupe/Greenpeace

Agostinho atribui os recordes de queimadas no Brasil a uma combinação de mudanças climáticas e a uma nova “tendência” de desmatamento das florestas nativas – pelo fogo.

À BBC, ele afirma que os grileiros estão substituindo o desmatamento tradicional pelo uso do fogo para expandir áreas destinadas à pecuária. Ele criticou a legislação brasileira, apontando que as penas para crimes ambientais são brandas, permitindo que os responsáveis por grandes queimadas escapem com punições leves.

Ação coordenada contra o fogo do Corpo de bombeiros no Pantanal. | Foto: Bruno Rezende/CBMS

Já os incêndios em São Paulo atingiram 150 cidades e pelo menos duas pessoas morreram no combate ao fogo. Especulou-se a ligação de pessoas do PCC. Um homem preso por atear fogo em Batatais alegou ser membro da organização criminosa, mas a investigação não encontrou evidências de tal ligação. O delegado Jorge Cury Amaro Neto, responsável pelo caso, sugeriu que a declaração poderia ter sido uma tentativa de obter atenção ou encobrir o verdadeiro responsável. O homem de 42 anos tem passagens no sistema prisional por tráfico, roubo e homicídio. O trabalho de investigação está a cargo da Polícia Federal e da Polícia Civil de São Paulo.

O que sabe sabe até então reforça a hipótese do “Dia do Fogo” em São Paulo. Análises do IPAM indicam que a fumaça de incêndios simultâneos no oeste paulista surgiu em apenas 90 minutos, com mais de 80% dos focos de calor em áreas agropecuárias, como cana de açúcar e pastagem. Doze pessoas já foram detidas por incêndios criminosos no interior do estado, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo.

Foto: Defesa Civil SP

Em audiência pública na Comissão de Meio Ambiente (CMA), a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou que as mudanças climáticas, a escassez hídrica severa e eventos como El Niño e La Niña, combinados com desmatamento e queimadas criminosas, criam uma “química altamente deletéria”. Ela observou que o uso inadequado do fogo, como no caso de Corumbá (MS), contribui significativamente para as queimadas.

Agosto de 2024: Brasília amanhece encoberta por fumaça causada por incêndios florestais. | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Atualmente, 27% das áreas queimadas na Amazônia são destinadas à agropecuária, e 41% estão em áreas de vegetação não florestal. Aproximadamente 85% dos incêndios ocorrem em propriedades privadas, com 15% em terras indígenas ou unidades de conservação.

A Polícia Federal abriu 31 inquéritos para investigar as origens dos incêndios e possíveis condutas criminosas no país, com 29 inquéritos focados na Amazônia e no Pantanal, e dois em São Paulo. No caso do Pantanal, em que houve recordes de incêndios em junho, já se sabe que a origem da propagação foi oriunda de propriedades privadas. “Vamos esperar que a Justiça faça esse indiciamento e vamos verificar quem são os proprietários, quais são as fazendas, se foi um processo culposo ou doloso. Neste momento, ações estão ocorrendo no âmbito da Justiça, em colaboração com a PF”, afirmou a ministra Marina.

Além de pessoas detidas em São Paulo, foram presos suspeitos no Paraná e Goiás durante as investigações sobre os incêndios.

Com informações do Agência Senado, BBC, Reuters, Agência Pública e Climainfo

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