Os alertas de desmatamento na Amazônia, no primeiro semestre de 2026, apontam para uma tendência animadora: o recuo na destruição das florestas, que nesta sexta-feira (17) é homenageada com o Dia da Proteção às Florestas. A queda foi de 35% em junho, em comparação ao mesmo período em 2025, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
A celebração à mata faz referência ao Curupira, que, com os pés virados para trás, engana caçadores e protege as matas e os animais da floresta. Fora do universo folclórico, especialistas da área ambiental atribuem os bons números ao avanço das políticas públicas adotadas nos últimos anos.
“Do ponto de vista científico, isso representa uma evidência de que o desmatamento não é um processo inevitável e que sua redução responde às decisões da sociedade e do Estado, basicamente à vontade política de combater esse problema”, destaca Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). Já a porta-voz da Frente de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil, Ana Clis Ferreira, afirma que o Brasil dispõe de instrumentos capazes de conter o avanço da destruição da floresta quando há prioridade política e atuação coordenada dos órgãos responsáveis. “Os resultados evidenciam a importância de manter e fortalecer políticas públicas que historicamente se mostraram eficazes no combate aos crimes ambientais, garantindo recursos, autonomia e capacidade operacional para instituições e órgãos envolvidos na proteção dos territórios”.
Os dados de alertas do INPE confirmam uma trajetória de queda de desmatamento na Amazônia que vem sendo observada nos últimos anos. No acumulado de agosto de 2025 a junho de 2026, a Amazônia registrou queda de 37,2%. No mesmo período, o Cerrado teve queda de 7,9%.
Os dados têm como base o DETER (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real), que opera como sistema de alertas diários voltado ao apoio das ações de fiscalização e controle ambiental. As informações consolidadas de desmatamento, divulgadas anualmente no segundo semestre do ano, são calculadas pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), também do INPE, que realiza uma análise detalhada das imagens.
Outras ameaças na Amazônia
Apesar da tendência de queda apontada pelo DETER, as constantes pressões pelo enfraquecimento da legislação socioambiental, os incêndios florestais, o garimpo, a exploração madeireira e as mudanças climáticas seguem como ameaças constantes à floresta amazônica.
“A gente pode reduzir o desmatamento, como aconteceu, e ainda assim ter mais áreas de floresta sendo impactadas por incêndios florestais. Então, precisamos combater os dois problemas lado a lado. O grande desafio agora é consolidar essa queda e ampliar as políticas que ajudam a prevenir os incêndios e a controlar melhor o uso do fogo. Porque reduzir o desmatamento é vencer uma batalha, mas ainda precisamos reduzir os incêndios florestais”, reforça a pesquisadora Alencar.
Moratória da Soja
Todo o esforço em prol da Amazônia ainda está ameaçado pelo fim da Moratória da Soja, um acordo firmado entre organizações da sociedade civil, empresas do setor agro e o governo para evitar a compra de soja proveniente de áreas desmatadas após julho de 2008, e que foi abandonado em 2026 por todas as empresas que o compunham.
Um artigo publicado na revista Science na última quinta-feira (16) aponta que o desmatamento na Amazônia pode chegar a 1,4 milhão de hectares adicionais nos próximos dez anos. Outro dado sugere que até 28,7 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas podem ficar mais vulneráveis à especulação, especialmente em áreas com potencial futuro de expansão da infraestrutura.
A saída do acordo da Moratória da Soja vai na contramão do mercado. Diante do aumento de exigências ambientais e de rastreabilidade no cenário internacional, as empresas precisam somar esforços pela redução do desmatamento para sobreviverem e manterem a competitividade, como pontua a organização ambiental WWF.
“Ao adotar compromissos de controle do desmatamento e rastreabilidade, o setor contribui para proteger a floresta, preservar serviços ecossistêmicos essenciais para a própria agricultura e responder às crescentes demandas dos mercados nacionais e internacionais”, afirma Tiago Reis, especialista em Conservação do WWF-Brasil. “Produzir mais e conservar a Amazônia são objetivos que podem caminhar juntos, desde que haja transparência, responsabilidade compartilhada e mecanismos capazes de orientar a expansão produtiva para áreas já abertas”, completa.

