O aquecimento residencial está no centro de uma iniciativa inédita na Nova Inglaterra. Acostumada a enfrentar invernos rigorosos, a região reúne cinco estados: Connecticut, Maine, Massachusetts, New Hampshire e Rhode Island, e está em um esforço conjunto para ampliar o uso de tecnologias mais limpas e eficientes. Batizado de New England Heat Pump Accelerator, o programa conta com investimento de US$ 450 milhões, financiado pela iniciativa federal Climate Pollution Reduction Grants, e pretende transformar a forma como as residências são aquecidas.
Katie Dykes, comissária do Departamento de Energia e Proteção Ambiental de Connecticut, classificou a iniciativa como “um grande feito”, explicando que “é inédito ver cinco estados se unindo em uma abordagem transformadora para implantar opções de aquecimento limpo mais acessíveis“. A meta é instalar mais de 580 mil bombas de calor nos próximos anos, reduzindo as emissões de carbono, diminuindo as contas de energia e ajudando as famílias a substituírem os combustíveis fósseis. As bombas de calor são sistemas elétricos de alta eficiência que transferem calor do ambiente externo para o interior das residências no inverno e podem fazer o processo inverso no verão, funcionando também como aparelhos de refrigeração. Por consumirem menos energia e dispensarem a queima direta de gás ou óleo para aquecimento, são consideradas uma das principais tecnologias para descarbonizar o setor residencial.
A região é considerada um campo de testes ideal porque ainda depende fortemente de petróleo, propano e gás natural, especialmente no Maine, onde mais da metade das residências utiliza óleo combustível para aquecimento. Essa dependência deixa a população vulnerável às oscilações de preços e às elevadas emissões de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, a expansão das bombas de calor ainda enfrenta obstáculos, como os altos custos iniciais, a falta de informação e a persistência de mitos sobre a capacidade da tecnologia de funcionar durante os invernos mais severos. “Não há plena consciência de que essas bombas de calor para baixas temperaturas podem lidar com nossos invernos”, disse Joseph DeNicola, vice-comissário da agência de energia de Connecticut. Ele observou que muitas unidades atuais já conseguem aquecer residências a um custo inferior ao dos combustíveis tradicionais. Alguns estados vêm comprovando esse potencial, o Maine alcançou a marca de 100 mil novas bombas de calor instaladas dois anos antes do prazo previsto, enquanto Massachusetts caminha para atingir sua meta.
Para ampliar a adesão, o acelerador foi estruturado em três grandes frentes de atuação. A primeira delas, o chamado centro de mercado, receberá a maior parte dos recursos, cerca de US$ 270 milhões, para oferecer incentivos à cadeia de suprimentos. Distribuidores serão financiados para reduzir o preço das bombas de calor destinadas aos instaladores, que deverão repassar essa economia aos consumidores. A estratégia busca transformar o mercado, estimulando a manutenção de estoques e tornando o aquecimento limpo a alternativa mais prática para os profissionais do setor. A expectativa é a de oferecer descontos entre US$ 500 e US$ 700 para bombas de calor ar-água adaptadas a climas frios e entre US$ 200 e US$ 300 para aquecedores de água com bomba de calor. “O acesso a esse financiamento deve ser muito simples para os empreiteiros”, disse Ellen Pfeiffer, da Energy Solutions, acrescentando que os incentivos serão aplicados automaticamente, sem necessidade de documentação adicional.
As outras duas frentes complementam a estratégia. O centro de inovação destinará US$ 14,5 milhões a cada estado para financiar projetos-piloto voltados às comunidades de baixa e média renda, incluindo a criação de bibliotecas de empréstimo de bombas de calor de janela, capazes de oferecer uma solução temporária a moradores cujos sistemas de aquecimento falhem inesperadamente. O programa também investirá na formação de mão de obra, em parceria com empresas contratadas, para criar novos percursos de capacitação com lançamento previsto ainda em 2026. Já o centro de recursos funcionará como uma plataforma centralizada de apoio para empreiteiros, distribuidores e implementadores de programas, com previsão de estar totalmente operacional também neste ano. Se a iniciativa alcançar seus objetivos, a região reduzirá 2,5 milhões de toneladas métricas de emissões de carbono até 2030, o equivalente a retirar mais de 540 mil carros movidos a gasolina das ruas. O projeto ganha ainda mais importância diante da perspectiva de eliminação gradual dos créditos fiscais federais de até US$ 2 mil para bombas de calor, tornando o papel dos estados ainda mais relevante na promoção da energia limpa. Para Dykes, o esforço vai além da inovação tecnológica: “Este é um exemplo de como estamos contribuindo para a redução das emissões de gases de efeito estufa com uma solução que pode ajudar as pessoas a controlarem seus custos de energia. É nisso que estamos realmente focados.”

