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Mapeamento inédito do solo brasileiro apoia decisões ambientais

Nova coleção do MapBiomas reúne dados históricos para orientar políticas públicas, agropecuária e conservação do solo

Published 19/12/2025
biota do solo

Foto: Revista O Biólogo

A rede MapBiomas, da qual o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) faz parte, lançou na sexta-feira (5 de dezembro) a terceira coleção de mapas sobre propriedades do solo brasileiro. O levantamento traz dados inéditos que permitem análises em profundidade de até 100 centímetros e detalham o estoque de carbono orgânico do solo. A iniciativa inclui ainda o lançamento da plataforma SoilData, que reúne informações de centenas de estudos científicos para apoiar a tomada de decisão em setores estratégicos, como agropecuária, agricultura e proteção territorial.

Segundo especialistas, a disponibilização desses dados amplia o olhar sobre um componente essencial nas políticas ambientais, mas historicamente pouco explorado. “O fato de ter esses dados disponibilizados traz luz para um compartimento que tem um papel decisivo nas políticas ambientais: o solo. Ele é uma peça-chave no contexto da emergência climática, por exemplo, porque pode ser tanto uma fonte de emissão de carbono quanto uma fonte de sumidouro. É parte extremamente importante do sistema, mas nem sempre está na pauta”, afirma Bárbara Costa, analista de pesquisa do IPAM.

A partir das informações reunidas no SoilData, foi possível mapear propriedades do solo em todo o território nacional, como granulometria, textura, pedregosidade e carbono orgânico. Nesta terceira coleção, foram utilizados 60.883 dados de granulometria e 28.065 registros de estoque de carbono orgânico — um aumento de cerca de 32% em relação à coleção anterior, lançada em 2024.

Mapeamento das classes texturais no território brasileiro até 100 cm de profundidade. Fonte: MapBiomas/IPAM

Os resultados indicam que 63,4% do Brasil apresenta textura média na camada superficial do solo (0 a 30 cm). Os solos argilosos ocupam 29,6% do território, enquanto as texturas arenosa, siltosa e muito argilosa somam apenas 7%. A distribuição varia entre os biomas: na Mata Atlântica, 52% dos solos superficiais são muito argilosos, enquanto na Caatinga, no Cerrado e no Pampa predomina a textura média. Em camadas mais profundas, entre 60 e 100 centímetros, o país passa a ser majoritariamente argiloso, com 63,6% dessa classe.

Historicamente, os solos muito argilosos são os mais utilizados pela agricultura e, em 2024, ocuparam 33% dessa textura. Trata-se da única classe textural em que a área agrícola supera a de pastagens, reflexo de condições físicas mais favoráveis, como maior retenção de nutrientes, melhor desenvolvimento radicular e maior estabilidade estrutural, o que reduz a erosão.

De acordo com Bárbara Costa, o avanço do mapeamento em profundidade amplia a compreensão sobre o funcionamento do solo. “De modo geral, a maior parte das informações que tínhamos sobre o solo cobriam a camada superficial, mas em profundidade a gente consegue um entendimento melhor de como o solo funciona além da superfície. O solo mais argiloso em profundidade significa que há um aumento do teor de argila no perfil. No Brasil, sai de 2,8% do solo como muito argiloso na camada de 0-30 cm e vai para 6,7% do solo como muito argiloso na camada de 60-100 cm. Saber dessa informação pode auxiliar desde o planejamento da construção civil, por exemplo, pensando em fundações, até o manejo agrícola, desenvolvimento de raízes e disponibilidade de nutrientes”, explica.

Outro destaque da coleção é o conjunto de mapas sobre o estoque de carbono orgânico do solo (COS), que indica a quantidade de carbono armazenada até 30 centímetros de profundidade — a camada mais impactada pelas atividades humanas. A série histórica cobre o período de 1985 a 2024 e permite avaliar os efeitos das mudanças no uso da terra ao longo do tempo.

“Com esses dados buscamos entender quanto carbono está estocado no solo entre 1985 e 2024. Os mapas funcionam como um retrato de cada ano, principalmente se considerarmos as mudanças de uso da terra. Monitorar o estoque de carbono do solo oferece informações valiosas para a gestão do território. Esses dados ajudam, por exemplo, a avaliar a qualidade do pasto, identificar se o solo está conseguindo acumular carbono e localizar áreas com maior ou menor estoque para orientar ações de manejo e conservação”, detalha a analista.

Atualmente, 35,9% dos solos brasileiros armazenam entre 40 e 50 toneladas de carbono por hectare. Esse estoque resulta da decomposição da matéria orgânica incorporada ao solo por organismos como formigas, cupins e microrganismos. Quando o solo sofre distúrbios naturais ou causados por atividades humanas, esse carbono pode ser liberado na forma de gases de efeito estufa. Do total de 37,5 gigatoneladas de carbono orgânico estocadas no solo brasileiro, 3 gigatoneladas estão em áreas agrícolas e 16 gigatoneladas em áreas florestais. Em 2024, a Amazônia concentrou 52% de todo o carbono orgânico do solo do país. A Caatinga e o Pantanal apresentam os menores estoques por hectare, com 32,7 e 35,3 toneladas, respectivamente.

Gráfico representa o uso da terra de acordo com as classes texturais do solo até 30 cm de profundidade. Fonte: MapBiomas/IPAM

“A agropecuária brasileira apresenta diferentes cenários quando falamos de carbono orgânico do solo. Grande parte da agricultura adota hoje o sistema de plantio direto, que ajuda a proteger e manter o carbono no solo. Por outro lado, pastagens degradadas podem liberar o carbono armazenado, enquanto pastagens bem manejadas podem capturar carbono da atmosfera e estocá-lo no solo. O equilíbrio entre ação humana e processos naturais é fundamental ”, destaca Bárbara Costa.

A Coleção 3 do MapBiomas Solo também reúne dados históricos padronizados provenientes de estudos realizados ao longo de 66 anos em todos os biomas do país. Ao todo, foram catalogadas mais de 45 mil coletas, distribuídas em mais de 15 mil pontos do território nacional, após rigoroso processo de curadoria e harmonização.

A maior parte das amostras está concentrada na Amazônia (42,7%), seguida pela Mata Atlântica (25%) e pelo Cerrado (cerca de 15%). A plataforma SoilData oferece visualização espacial intuitiva, filtros temáticos e acesso direto às informações, sempre com reconhecimento aos autores. O objetivo é disponibilizar dados prontos para uso em análises, mapeamentos e modelagens, contribuindo para decisões estratégicas em diferentes áreas.

Mais sobre o Mapbiomas: https://brasil.mapbiomas.org/ 

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