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Tripla crise planetária já afeta todos os oceanos do mundo

No Brasil, águas costeiras aquecem acima da média global; confira os destaques do relatório global ‘Estado do Oceano’

Published 02/10/2025

Foto: Naja Bertolt Jensen | Unsplash

Nenhuma região do oceano global está imune aos impactos combinados da mudança climática, perda de biodiversidade marinha e poluição. Essa é a conclusão da 9ª edição do Copernicus Ocean State Report (OSR), divulgada na última terça-feira (30) pelo Serviço Marinho Copernicus da União Europeia.

O relatório, uma das principais referências científicas globais sobre o estado dos oceanos, alerta que a tripla crise planetária afeta 100% das regiões oceânicas, incluindo o Atlântico Sul e a costa brasileira.

Foto: Ken Findlay

O oceano, responsável por absorver aproximadamente 90% do calor excedente gerado pelas emissões de gases de efeito estufa, está se aquecendo em ritmo acelerado. Esse aquecimento tem impactos diretos sobre ecossistemas marinhos, cadeias alimentares, pesca, aquicultura, comunidades costeiras e até a própria estabilidade climática do planeta. De acordo com Pierre Bahurel, diretor-geral da Mercator Ocean International, “estamos perigosamente próximos de ultrapassar os limites planetários”, com todas as partes do oceano sendo afetadas simultaneamente.

Aquecimento oceânico e ondas de calor 

Desde a década de 1960, os oceanos vêm aquecendo progressivamente, mas nos últimos anos esse processo se intensificou. Em 2024, a temperatura média da superfície do mar atingiu 21 °C, a mais alta já registrada. Embora a variação pareça pequena, os efeitos são devastadores para a vida marinha e o equilíbrio do sistema climático global. Entre 2023 e 2024, ondas de calor oceânicas ultrapassaram os recordes históricos de 2015 e 2016 em 0,25 °C.

Em algumas regiões, como o Atlântico Tropical Norte, o calor extremo persistiu por mais de 300 dias consecutivos, especialmente nas ilhas do Caribe. Entre Colômbia e Brasil, foram mais de 180 dias, ou seis meses, de temperaturas anormalmente elevadas. Os efeitos já são visíveis: colapso de estoques pesqueiros, desaparecimento de espécies e perdas socioeconômicas significativas para comunidades costeiras.

Foto: Andrey Nosik

No Mediterrâneo, o aumento da temperatura chegou a 4,3 °C acima da média, favorecendo a proliferação de espécies invasoras e dizimando cultivos tradicionais, como as amêijoas no delta do rio Pó, na Itália.

Brasil: alta vulnerabilidade e poluição plástica

A situação do Brasil merece destaque no relatório. A costa atlântica brasileira tem apresentado aquecimento acima da média global, o que intensifica os riscos para a biodiversidade e para a segurança alimentar de milhões de brasileiros que dependem da pesca e da aquicultura. Além disso, o país é apontado como o maior emissor de plástico para o oceano entre os países das Américas, agravando a crise da poluição marinha no Atlântico Sul.

A cientista Karina von Schuckmann, presidente da iniciativa e coautora do relatório, reforça que a compreensão científica é essencial para embasar decisões públicas eficazes. “O oceano está mudando rapidamente. Sabemos o porquê e conhecemos os impactos. Esse conhecimento é um plano de ação para restaurar o equilíbrio entre humanidade e natureza”, afirma.

Biodiversidade e acidificação 

O relatório também alerta para a acidificação acelerada das águas, especialmente em regiões com alta biodiversidade. A combinação entre aumento da temperatura, maior acidez e poluição por plásticos está comprometendo a sobrevivência de espécies já vulneráveis, como corais, moluscos e pequenos organismos marinhos que sustentam a base da cadeia alimentar.

Branqueamento de corais no sul da Grande Barreira de Corais, 2024. | Foto: theundertow.ocean & @diversforclimate

Os recifes de corais, por exemplo, estão entre os ecossistemas mais afetados. Cerca de 75% dos países que mais poluem o oceano com plástico – mais de 10 mil toneladas por ano – possuem recifes em situação crítica, segundo os dados do OSR. Além disso, está em curso uma migração silenciosa, mas profunda: espécies como o micronekton (pequenos organismos marinhos que servem de alimento para peixes maiores) estão se deslocando em direção aos polos, transformando os ecossistemas marinhos de maneira estrutural.

Poluição plástica global

Foto: Voz dos Oceanos

Os resíduos plásticos oriundos de todos os continentes já foram detectados em todas as bacias oceânicas do planeta. Na América Latina, o Brasil ocupa uma posição preocupante como principal emissor de plástico para o oceano, com consequências diretas para os corais da costa leste sul-americana e do Caribe. No Pacífico, áreas altamente produtivas encolheram mais de 25% desde 1998, afetando algumas das pescarias mais ricas do mundo e colocando em risco a segurança alimentar de milhões de pessoas.

Degelo polar e aumento do nível do mar

Outro ponto crítico apontado pelo relatório é o derretimento acelerado das calotas polares. No Ártico, entre dezembro de 2024 e março de 2025, foram registrados quatro recordes consecutivos de perda de gelo marinho. Em março, a área total de gelo estava 1,94 milhão de km² abaixo da média histórica, o equivalente a seis vezes o território da Polônia.

Rochas com metais pesados são expostas pelo degelo e contaminam a água da região de Huaraz, no Peru. Foto: Reprodução YouTube | Germanwatch

Na Antártida, o cenário também é grave. Fevereiro de 2025 marcou o terceiro ano consecutivo de retração significativa da calota de gelo, com perda acumulada correspondente a quase três vezes o território da França. 

Desde 1901, o nível médio do mar subiu 228 mm, e a tendência é de aceleração. Apenas na Europa, 200 milhões de pessoas vivem em áreas costeiras, e sítios históricos tombados pela Unesco enfrentam risco crescente de inundações nas próximas décadas.

Barômetro Estrela-do-mar

Durante o Dia Mundial dos Oceanos de 2025, na Conferência das Nações Unidas sobre Oceanos (UNOC3), foi lançado o Barômetro Estrela-do-mar: um novo indicador que complementa os dados do Ocean State Report. A partir de agora, o barômetro será publicado anualmente como parte oficial do relatório, reforçando seu papel como referência científica confiável para orientar políticas públicas e ações globais de conservação marinha.

O que é o Copernicus Ocean State Report?

O Copernicus Ocean State Report (OSR) é uma publicação científica anual do Serviço Marinho Copernicus, produzida por mais de 150 especialistas internacionais e publicada no periódico State of the Planet, após revisão independente por pares. O relatório integra dados de satélite, modelagem computacional e medições in situ para oferecer uma visão abrangente do estado atual e das tendências futuras dos oceanos tanto em escala regional europeia quanto em escala global.

A publicação atua como base de evidências para a formulação de políticas ambientais, decisões econômicas no setor da chamada economia azul, e como fonte confiável de informação para a comunidade científica e o público em geral.

Acesse o relatório completo.

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