A Conferência do Clima de Bonn, que acontece na Alemanha, chega ao seu último dia com negociações intensas sobre os caminhos da ação climática global. Um dos pontos centrais em debate é o financiamento para adaptação às mudanças do clima, tema que expõe uma diferença enorme entre o que é prometido e o que de fato é investido. Segundo a análise da LACLIMA, essa lacuna financeira pode comprometer diretamente a proteção das populações mais vulneráveis, justamente em um momento em que os impactos da crise climática se tornam mais frequentes e severos em todo o mundo.
Os SBs (Subsidiary Bodies, ou Órgãos Subsidiários da UNFCCC) são as conferências que ocorrem anualmente em Bonn e têm a função de preparar textos que serão posteriormente deliberados nas COPs. No agora SB 64, os três principais fundos multilaterais (Fundo de Adaptação, GEF e GCF) apresentaram seus números atualizados sobre a adaptação climática: uma carteira histórica acumulada de aproximadamente US$ 24 bilhões.
Ainda que o valor soe relevante, quando dimensionado, mostra-se muito aquém das necessidades atuais. Para dimensionar a insuficiência desse montante, a LACLIMA reuniu comparações que evidenciam as atuais prioridades financeiras globais.
Todo o financiamento histórico para adaptação, implementado por meio da arquitetura da UNFCCC, equivale a:
- 1 dia de subsídios aos combustíveis fósseis: Os US$ 24 bilhões representam menos de 1% dos US$ 7 trilhões anuais (estimativa do FMI) destinados a subsidiar fontes fósseis.
- 1 mês das necessidades globais de adaptação: O PNUMA estima que países em desenvolvimento precisem de US$ 215 a 387 bilhões por ano.
- 3 dias de gastos militares globais: O mundo gasta cerca de US$ 2,7 trilhões anuais em arsenais e defesa militar.
- Menos de 1/4 de um único projeto de infraestrutura de transporte: Um projeto ferroviário nos EUA tem custo estimado superior a US$ 100 bilhões.
Na COP 30, os países aprovaram os Indicadores de Adaptação de Belém (Belém Adaptation Indicators – BAI), um conjunto de métricas destinadas a acompanhar o progresso das iniciativas de adaptação. Muitos países em desenvolvimento argumentam que monitorar indicadores terá impacto limitado sem resolver a lacuna de financiamento. “Há um esforço crescente para conectar adaptação e financiamento climático”, pontua Gabriel Mantelli, coordenador de políticas climáticas da LACLIMA. A demanda central é por um roteiro que garanta meios de implementação: recursos públicos, previsíveis, acessíveis e transferência de tecnologia.
Impasses e decisões adiadas
Chegando ao fim do evento, a LACLIMA destaca a dificuldade nas negociações, inclusive nas metas de adaptação e mitigação. Na Meta Global de Adaptação (GGA), países em desenvolvimento bateram o pé pela inclusão de um compromisso explícito para triplicar o financiamento da área, o que foi rejeitado por países desenvolvidos. Já na pauta de mitigação, a divergência entre blocos que pedem aumento de ambição versus os que focam na implementação deixou o Programa de Trabalho de Mitigação (MWP) ameaçado, ainda sem consenso claro sobre sua continuidade.
A LACLIMA acompanhou diretamente 18 frentes temáticas em salas de negociação durante a SB 64. Com o término da conferência, a organização publicará um documento escrito resumindo os resultados de todos os itens acompanhados. As quatro sessões de reportes estão disponíveis na íntegra no Youtube da LACLIMA (aqui).

