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O que é Biochar?

Reproduzindo os saberes ancestrais da “Terra Preta de Índio”, o biochar melhora a qualidade do solo e pode gerar créditos de carbono

Published 04/09/2025
biochar

Biochar. Foto: Ambipar

As chamadas “Terras Pretas de Índio” são solos de origem antrópica, formados há séculos por populações indígenas amazônicas. Atualmente, esse produto, conhecido como biochar (ou biocarvão), desperta um grande interesse por seus efeitos agronômicos, sua contribuição para a melhoria dos atributos do solo e, mais recentemente, por ser uma forma eficaz de remoção de carbono de longa duração, podendo gerar créditos de carbono de alta integridade e valor de mercado.

Estudos mostram que as Terras Pretas de Índio resultaram da deposição contínua de resíduos orgânicos (restos alimentares, ossos, dejetos), fragmentos de cerâmica, cinzas e, principalmente o carvão pirogênico oriundo de fogueiras domésticas. Essa combinação aumentou de forma duradoura a fertilidade natural de solos pobres e intemperizados amazônicos, elevando os teores de matéria orgânica, macro e micronutrientes. E a presença de carvão estável explica essa longevidade na fertilidade, que permanece até os dias atuais.

Embora alguns estudos sugiram hipóteses alternativas, o consenso científico atual é que a Terra Preta foi resultado de um manejo indígena intencional, sendo considerada uma das primeiras evidências de agricultura sustentável na Amazônia. Esse conhecimento ancestral inspirou a ciência moderna a desenvolver o biochar (ou biocarvão), na tentativa de replicar e potencializar seus efeitos, melhorando a fertilidade do solo, aumentando sua capacidade de retenção de água e atuando como estratégia de sequestro de carbono no solo.

Solo da Amazônia. Foto: Felipe Santos da Rosa | Embrapa

O que é biochar e como é produzido?

O biochar é um material carbonáceo sólido, obtido pela pirólise, processo de decomposição térmica de biomassa em ambiente com oxigênio limitado, com temperaturas entre 300°C e 700°C. Dependendo do processo da pirólise, os produtos obtidos são diferentes:

As matérias-primas incluem resíduos agrícolas (palha de cana, casca de arroz, podas), resíduos urbanos (lodo de esgoto, restos alimentares) e dejetos animais. A escolha da matéria-prima impacta as propriedades finais, ou seja, biochar de origem animal concentram mais nutrientes (Ca, Mg, P), enquanto os de madeira apresentam maior estabilidade e menor teor de cinzas. Diferente do carvão tradicional, o biochar é produzido com foco em benefícios ambientais e agronômicos.

Palha de cana-de-açúcar. Foto: iStock

Características físico-químicas do biochar

As propriedades do biochar dependem tanto da biomassa quanto das condições de pirólise. Entre as mais relevantes estão:

Químicas:

Físicas:

Físico-químicas:

Caroço de açaí secando ao sol para a produção de biochar. Foto: Moisés Mendonça

Benefícios agronômicos e ambientais

A aplicação do biochar em áreas agrícolas e florestais gera múltiplos ganhos:

Fertilidade do solo:

Retenção de água:

Saúde das plantas:

Ambiente e clima:

Biochar. Foto: Felipe Santos da Rosa | Embrapa

Biochar e os créditos de carbono

O biochar é reconhecido por padrões internacionais como créditos de remoção de carbono, de alta integridade e longa permanência. Isso se traduz em créditos de carbono premium, com preços frequentemente superiores a US$ 100/tCO₂ e no mercado voluntário.

Atualmente, as principais metodologias aplicáveis para projetos para geração de créditos de carbono envolvendo a produção e a aplicação do biochar são:

Além disso, a escolha da biomassa, sua umidade, presença de contaminantes e proximidade da planta de pirólise são fatores decisivos para viabilidade técnica e econômica do projeto.

Assim, biochar sintetiza o legado ancestral das Terras Pretas de Índio e inovação climática e o mercado de carbono. Ao mesmo tempo em que melhora a fertilidade, a retenção de água e a sanidade dos solos, oferece uma das formas mais seguras de sequestrar carbono em longo prazo. Nesse sentido, o biochar coloca-se no centro de um elo entre agricultura sustentável, economia circular e ação climática ao transformar resíduos em valor, aumentar a resiliência agrícola e gerar créditos de carbono de alta integridade, essenciais para enfrentar a crise climática.

Marcos Siqueira Neto. Foto: Ambipar

Este conteúdo foi enviado por Marcos Siqueira Neto, especialista da Ambipar em projetos de carbono na agropecuária.

Quer saber mais? Essas são as referências bibliográficas: 

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