Não é segredo que as fases da Lua influenciam as marés e a nós, compostos de água como o nosso planeta. Conhecimentos ancestrais indicam que a seiva das plantas também pulsa em sintonia com os ciclos lunares. Por isso, por exemplo, o bambu para construção é colhido na Lua minguante, e ervas medicinais, mais potentes, na Lua cheia.
A percepção da influência dos astros na Terra é tão antiga quanto a nossa necessidade de cultivar o próprio alimento. Por isso, a agricultura original se desenvolveu com a visão hermética de que “O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima.”
Em 1924, o austríaco Rudolf Steiner, estudioso da antroposofia, aprofundou o elo entre a alquimia e a agricultura, reacendendo a visão holística da vida. Ele deu indicações práticas de como trabalhar a favor dos fluxos de vida, dando origem à agricultura biodinâmica: uma abordagem de harmonia profunda entre o ser humano, o cosmos e a natureza.
Nesse sistema, a fazenda é vista como um organismo vivo, em que o agricultor ou a agricultora ‘orquestra’ as funções vitais, fazendo a diversidade dos elementos interagir de forma sustentável, saudável e gerando cada vez mais qualidade. Para otimizar a saúde do solo e das plantas, utiliza-se os preparados biodinâmicos sugeridos por Steiner.
Esses preparos alquímicos, elaborados com elementos dos reinos mineral, vegetal e animal, são aplicados em microdoses para ativar e potencializar os processos de vida.
A eficácia desses preparados é comprovada por inúmeros estudos científicos e, hoje, reforçada pela experiência de viticultores renomados. Da França à Nova Zelândia, os melhores vinhos são frequentemente produzidos por meio da agricultura biodinâmica.
O mais curioso é que, até mesmo produtores céticos em relação às influências astronômicas usam esses preparados, pois a qualidade inegável que eles proporcionam fala por si.
“A Vida acontece em um pulsar dinâmico. Somos parte de um fluxo maior, e o entendimento dessa conexão pode nos ajudar a transitar pelos altos e baixos da vida com mais leveza e confiança”, explica Sophie Boyriven Moreira de Souza, consultora ambiental, agricultora biodinâmica e agroflorestal da Vila Biodinâmica.
Mas Rudolf Steiner alertou que as receitas que ele indicou eram apenas algumas das infinitas fórmulas alquímicas que podemos desenvolver quando nos conectamos com as forças sutis. O segredo é abrir as portas internas e externas para que a sabedoria da vida nos inspire.
“Ao ampliarmos a nossa percepção, vemos que a força vital que atravessa tudo – humanos, animais, plantas e minerais – está sempre nos impulsionando em direção a mais vida, mais abundância e mais sabedoria”, reforça Sophie.
Esse processo se reflete na dinamização dos preparados biodinâmicos: ao movimentar o líquido em um sentido e depois no outro, surge o inevitável caos. Assim como na vida, esse caos não é o fim, mas o processo necessário para que possamos fluir renovados, mais amplos e mais potentes. É como a lagarta que enfrenta a dor da transformação sem saber que renascerá borboleta.
Sophie ressalta que as plantas não reagem apenas aos movimentos da Lua, mas à toda uma dança planetária. “Por mais que tentemos padronizar e isolar variáveis, é inegável que estamos imersos em um universo de astros, cada qual com seu ritmo, gerando fluxos e tensões”.
A agricultura biodinâmica, seus preparados e rituais de cuidado, que incluem os movimentos humanos e planetários é baseada na ideia de que somos sustentados pelos reinos mineral, vegetal e animal, e a agricultura é a forma mais pura de expressar o cuidado com o que nos nutre.
Além do uso de preparados específicos e acompanhamento do calendário astronômico (incluindo fases da lua, e movimento dos astros), a agricultura biodinâmica tem como ferramentas a rotação de culturas, a compostagem e a busca constante por um solo mais vivo e produtivo, sem o uso de produtos químicos sintéticos.
“Com a visão hermética de que ‘tudo o que está fora está dentro’, podemos nos ver como organismos vivos, únicos e interdependentes, participantes de uma grande dança, convidados a fluir pelo ritmo da vida!”, completa Sophie.
Vila Terra Biodinâmica
Há 15 anos, Sophie trabalha na Terra Biodinâmica, aplicando os princípios da agricultura biodinâmica no cultivo de sistemas agroflorestais. A fazenda familiar migrou de uma produção convencional para um cultivo orgânico e biodinâmico, transformando a saúde do solo, das plantas e das colheitas, cada vez mais saborosas e saudáveis, para as pessoas que trabalham com a terra, que consomem seus frutos e para as outras formas de vida com as quais dividimos o planeta.
Há 1 ano, a família decidiu abrir a Terra Biodinâmica para outras pessoas interessadas em estabelecer uma relação mais equilibrada com a terra. Uma parte da fazenda deu origem à Vila Biodinâmica, o primeiro loteamento agroecológico da região de Itapetininga, interior de São Paulo.
Oito dos 12 lotes de 20 mil metros quadrados estão disponíveis para receber novos moradores, fazendo parte de uma associação com normas pré-estabelecidas, como a proibição do uso de adubos químicos, herbicidas, pesticidas, sementes transgênicas, antibióticos ou hormônios. No estatuto da associação, estão todas as indicações que garantam uma ocupação e vizinhança ecológicas.
Os lotes ficam à beira de um dos açudes da Terra Biodinâmica e podem ser visitados com agendamento prévio. Para mais informações, siga a Vila Terra Biodinâmica no Instagram: @vila_tb. Se quiser agendar uma visita, diga que você conheceu a Associação Ecológica pelo CicloVivo.

