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Técnicas simples e sustentáveis recuperam solos no Ceará

Sistemas agroflorestais e uso de insumos orgânicos produzidos nos próprios sítios recuperam o solo e a a produção

recuperação solo Ceará
Os experimentos foram realizados por pesquisadores da Embrapa, que afirmam que resultados semelhantes podem ser obtidos em outros Estados do Semiárido brasileiro | Foto: Adilson Nóbrega
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Por Alice Sales | Agência Eco Nordeste

Solos degradados de pequenas propriedades situadas nos municípios cearenses de Irauçuba, Sobral e Ibaretama estão sendo recuperados por meio de técnicas simples e sustentáveis, com adubação a partir de insumos orgânicos produzidos nos próprios sítios.

Além da recuperação dos solos, pode-se também observar como resultado o aumento das produções nessas propriedades. Os experimentos foram realizados por pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Eles afirmam que resultados semelhantes podem ser obtidos em outros estados do Semiárido brasileiro.

Recuperação de nascente

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No sítio Areias, em Sobral, um dos resultados a se comemorar foi a recuperação de uma área de nascente degradada que já não abastecia a comunidade. O principal método utilizado foi o plantio consorciado de leguminosas e milho. Éden Fernandes, zootecnista e analista da Embrapa Caprinos e Ovinos, atuou nesses projetos e relembra que, inicialmente, foram plantadas as espécies nativas jucazeiro, canafístula, aroeira e sabiá.

“Em um segundo momento, foi feito o experimento com a implantação das leguminosas cunhã e crotalária consorciadas com milho”, explica Éden Fernandes, zootecnista e analista da Embrapa Caprinos e Ovinos.

Foto: iStock bt Getty Images

A implantação de um conjunto de técnicas de Sistemas Agroflorestais foi fundamental para o êxito. Acessível e possível de ser reproduzido por qualquer produtor rural, o método conta com a cultura de plantas nativas para a recuperação da área.

A agricultora Regina Souza destaca que os resultados são visíveis na comunidade. “Hoje temos árvores nativas plantadas e outras plantas para a alimentação dos animais, além de água em quantidade que dá para o consumo dos animais e das plantações.”

Roberto Cláudio Pompeu, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos, explica que o cultivo das leguminosas pode ser utilizado como meio para adubação verde rica em nitrogênio, já que os agricultores da comunidade não costumam aplicar fertilizantes que favoreçam os atributos químicos dos solos.

“Por outro lado, o consórcio milho-leguminosas pode também ser alternativa para a produção de silagem, já que o teor de matéria seca médio do consórcio crotalária-milho no momento da colheita ficou em 32,9%, faixa ideal para a ocorrência de processo fermentativo adequado, o que não aconteceu com o consórcio milho-cunhã”, explicou Roberto.

O plantio conjunto de milho e crotalária demonstrou, de um modo geral, melhores resultados em termos de produtividade e qualidade de material para produção de volumoso. Para uso como cobertura morta superficial no solo, ambos os consórcios são interessantes e uma alternativa viável para promover a ciclagem de nutrientes em Sistemas Agroecológicos. Os resultados também indicaram que o consórcio crotalária-milho apresentou maior produtividade que o cunhã-milho.

Área em desertificação

Atualmente, grande parte do município de Irauçuba (CE) encontra-se em processo de desertificação, que é o estágio máximo da degradação do solo | Foto: Adilson Nóbrega

Em uma situação ainda mais grave, por se tratar de uma área em processo de desertificação associada ao desmatamento e à prática de pecuária extensiva com altas taxas de lotação, o experimento na propriedade rural situada em Irauçuba já apresenta resultados positivos. Atualmente, grande parte do município encontra-se em processo de desertificação, que é o estágio máximo da degradação do solo.

De acordo com Henrique Antunes, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Meio-Norte, uma área em processo de desertificação demanda muito mais tempo para ser recuperada do que áreas em processo de degradação em níveis iniciais. Isso porque o próprio sistema não consegue se recuperar sozinho.

É necessário, então, investimento em insumos como culturas agrícolas, plantas de coberturas e adubação orgânica para que seja possível essa recuperação. “Com isso, é possível trazer uma microbiota para o solo e proporcionar uma ciclagem de nutrientes nesse sistema”, explica Henrique.

Os cientistas explicam que, mesmo nas áreas em processo de desertificação, o uso de diferentes estratégias de baixo custo contribui para a melhoria da qualidade do solo, com a manutenção da temperatura e aumento da fertilidade. 

“Uma área desertificada demora cerca de 50 anos para se recuperar naturalmente. Ficar fechada, sem uso, é inviável, por isso estamos trabalhando para a recuperação dos solos com a implantação de sistemas de produção sustentáveis.”

Henrique Antunes, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Meio-Norte
É possível enriquecer e preservar o solo com técnicas naturais. Foto: Pixabay

Como solução para a recuperação do solo do sítio do agricultor Francisco de Assis Rodrigues Sousa, os pesquisadores utilizaram insumos acessíveis, de dentro da propriedade, como adubos verdes.

“Trituramos os resíduos de sabiá, jurema e leucena e aplicamos no solo, o que garantiu um enriquecimento da matéria orgânica e a recuperação da fertilidade”, afirma Antunes.

O cientista explica que cada espécie vegetal tem uma particularidade e que a utilização de diversas delas, simultaneamente, garante melhores resultados.

Além disso, os pesquisadores trabalharam em duas áreas que foram fechadas para que os animais não tivessem acesso. No primeiro ano de experimento, que teve início em 2015, foram plantados milho e milheto e, devido a períodos chuvosos irregulares, a produção não foi boa, segundo o produtor. 

“Mas hoje a gente já percebe que nasceram capim e várias espécies de plantas como algaroba e leucena, sinal de que a área está se recuperando”, destaca Francisco Sousa.

Caatinga degradada

Já na propriedade em Ibaretama, os cientistas trabalharam em uma área de Caatinga degradada, com solo exposto e sinais de erosão. Roberto Cláudio Pompeu detalha que a primeira camada do solo é a mais rica e facilmente levada pelas chuvas, caso o solo não esteja protegido e que os Sistemas Agroflorestais são uma alternativa eficaz para a melhoria dessas áreas.

Nessa propriedade, em Ibaretama, a implantação do Sistema Agroflorestal foi feita com as espécies sabiá e cajá, consorciadas com milho e feijão. O esterco dos animais e a bagana de carnaúba foram utilizados como adubo e o resultado foi um aumento de 70% na produção do milho e do feijão, em um período de cinco anos, quando foram colhidas três safras.

De acordo com os cientistas, a análise dos resultados apontou um aumento do pH das camadas superficial e subsuperficial do solo, em função do uso de esterco de ovelhas. Como alguns solos do Semiárido costumam ser ácidos, o aumento do pH os torna mais adequados ao cultivo.

Os pesquisadores também verificaram um incremento dos macronutrientes fósforo, potássio, cálcio, magnésio e do micronutriente zinco, entre outros não apenas na área, mas também na composição das plantas de sabiá.

Causas da degradação

Foto: iStock

O manejo inadequado do solo e fatores climáticos são as principais causas da degradação que, em alguns casos, compromete a capacidade produtiva da área. As altas taxas de lotação e o superpastejo, que ocorrem quando há excesso de animais na pastagem, diminuem as plantas herbáceas além de desgastarem a área, às vezes de forma irreversível.

O excesso de pisoteio causa erosões com diferentes graus de intensidade e deteriora progressivamente os recursos do solo e da vegetação, reduzindo a fertilidade da área pela diminuição de nutrientes disponíveis para as plantas.

Além desses fatores, a retirada da cobertura vegetal deixa o solo exposto à força das chuvas, principalmente no Semiárido, onde os períodos chuvosos são curtos, mas as precipitações são intensas e contribuem com o processo de erosão.

Os pesquisadores explicam que a adoção de Sistemas Agroflorestais ou roçados agroecológicos podem ser alternativas viáveis para recuperação de áreas em processo de degradação, porque os resíduos das árvores mantidas no sistema de produção formam uma camada de serrapilheira que contribui para o ciclo de nutrientes no solo. 

A aplicação de resíduos de plantas, como galhos e folhas, para cobertura do solo é uma estratégia para aumentar a sustentabilidade, além de beneficiar as culturas de interesse econômico, o solo e o ambiente.

O uso de insumos orgânicos como estercos, adubos verdes e palhada é uma alternativa para melhorar as características físico-químicas do solo. De acordo com os resultados obtidos pelos pesquisadores da Embrapa, a utilização desses materiais reduz a temperatura do solo, impedindo o aquecimento excessivo e a perda de água.

“Isso é importante porque a temperatura é uma propriedade que afeta diretamente os processos microbiológicos, a germinação e o crescimento dos brotos das plantas”, explica Pompeu.

As folhas das espécies mofumbo, sabiá, jurema-preta, jucá, catingueira, pereiro e pau-branco utilizadas como adubo verde também proporcionaram um aumento nos teores de fósforo, potássio, cálcio e magnésio no solo, e incrementam a fertilidade.

O pesquisador explica ainda que o uso das folhas da serapilheira de espécies lenhosas da Caatinga tem potencial para melhorar os atributos químicos de solos em processo de degradação e, consequentemente, elevar a produção das culturas agrícolas.

A aplicação de resíduos de leguminosas da catingueira, sabiá e jurema preta incrementa variáveis biométricas, biomassa e a eficiência nutricional de plantas de milho, sorgo e milheto. Antunes explica que aumentar a produtividade de uma área não significa apenas ter uma safra maior, mas relaciona-se também à estabilidade da produção em sistemas sustentáveis.

Com informações da Embrapa Caprinos e Ovinos

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