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7 mitos sobre o descarte de medicamentos

Desinformação pode causar danos à saúde e ao meio ambiente; confira o que dizem os especialistas

Published 18/10/2025
descarte de medicamentos

Foto: Envato

Com mais de 210 milhões de habitantes, o Brasil está entre os países que mais consomem medicamentos no mundo. Segundo o Conselho Federal de Farmácia, mais de 162 bilhões de doses são vendidas por ano no país. Por isso, saber como descartá-los corretamente é fundamental.

Assim como o isso inadequado de medicamentos é uma grave ameaça à saúde, o descarte desses produtos pode trazer grandes riscos para o planeta e todas as espécies de vida da Terra, inclusive a humana. Apesar de muitas farmácias oferecerem pontos de descarte para remédios e suas embalagens, muita gente ainda joga esses resíduos em casa, de forma errada. O pior: muitos mitos circulam sobre o assunto. A seguir, especialistas explicam porque algumas das afirmações são equivocadas e perigosas.

Mitos sobre descarte de medicamentos 

Foto: Volodymyr Hryshchenko | Unsplash

1 – Jogar medicamentos na privada ou na pia resolve o problema, pois a água leva para longe

De acordo com o professor de Biologia do Colégio Positivo, Guilherme Teitge, medicamentos têm compostos ativos que não se degradam facilmente. Mesmo em quantidade pequena, quando são descartados por pias ou vasos sanitários, acabam chegando ao sistema de esgoto ainda mais rápido. “As estações de tratamento de esgotos não foram projetadas para remover todos os tipos de medicamentos ou em todas as suas formas químicas. Isso significa que essas substâncias podem chegar a rios, lagos, mananciais, lagos urbanos ou mesmo no ambiente marinho”, alerta.

Um estudo da Universidade de York, no Reino Unido, revelou que a presença de fármacos em rios de 104 países representa uma crise ambiental de alcance global, ameaçando tanto a vida aquática quanto a saúde humana. A análise de 258 rios mostrou que mais de um quarto deles contém substâncias farmacêuticas ativas, resistentes mesmo aos processos das estações de tratamento mais modernas, o que pode comprometer a eficácia dos antibióticos e agravar o risco de poluição hídrica.

Segundo Teitge, muitos medicamentos têm moléculas estáveis, que permanecem no meio ambiente por muito tempo, acumulando-se no solo, sedimentos ou organismos vivos. “Essa persistência torna difícil reverter os danos. Depois que o contaminante está no ecossistema, removê-lo é caro e complexo.”

2 – O mais importante é quando e não onde descartar o medicamento.

Segundo a infectologista do Hospital São Marcelino Champagnat Camila Ahrens, é muito importante se atentar para a data de vencimento dos medicamentos – e não consumir qualquer medicamento após o prazo de validade.

Mas, o descarte inadequado também pode comprometer a saúde de toda a população. “Mesmo que em doses muito pequenas, há a possibilidade de os resíduos chegarem ao nosso corpo via água contaminada — seja para beber, tomar banho ou uso em irrigação. São consequências de longo prazo, mas perigosas, como  desequilíbrios hormonais e possíveis efeitos tóxicos acumulativos”, explica.

Além disso, ela alerta para um risco especialmente grave: jogar antibióticos no lixo comum, na pia ou no vaso sanitário pode ajudar na criação das chamadas superbactérias. “Isso acontece porque os resíduos do medicamento ficam no ambiente e permitem que alguns microorganismos se adaptem a essas substâncias, tornando-se mais resistentes aos tratamentos convencionais. Ou seja, além de poluir o meio ambiente, o descarte incorreto de medicamentos aumenta o risco de termos infecções mais difíceis de tratar no futuro”, salienta.

Isso significa que infecções comuns podem deixar de responder aos tratamentos utilizados atualmente, exigindo medicamentos mais fortes, mais caros e com mais efeitos colaterais. “Doenças muito frequentes, como infecções de pele, garganta, urinária, pneumonia, até infecção hospitalar simples podem se tornar grandes problemas. O risco é voltarmos a uma era pré-antibiótico em que as infecções que hoje são tratáveis voltariam a ser ameaçadoras à vida”, alerta a médica.

Foto: Divulgação | Roche

3 – Plantas medicinais ou fitoterápicos não fazem mal se jogados no lixo comum ou na natureza.

Da mesma maneira que plantas medicinais ou fitoterápicos têm efeitos positivos na nossa saúde quando usados de forma correta, esses medicamentos naturais podem fazer mal, se não forem administrados corretamente. O mesmo vale para o descarte: esses produtos podem ter compostos ativos que afetam organismos vivos, com risco de efeitos bioacumulativos, se acumulados no solo ou água.

“Plantas medicinais com alto teor de compostos fenólicos, alcaloides ou substâncias bioativas fortes tendem a persistir no ambiente, serem tóxicas para micro-organismos, insetos ou organismos aquáticos, mesmo em baixas concentrações”, explica o professor Teitge. Algumas plantas populares entram nessa categoria, como o boldo – utilizado em forma de chá para tratar problemas digestivos – e a erva-cidreira, que tem efeito calmante.

 4 – Se a embalagem estiver vazia, não há riscos para o meio ambiente.

De acordo com o farmacêutico da Prati Donaduzzi, Danilo Pinheiro Stahelin, muitas embalagens — especialmente blisters (cartelas), frascos de xaropes, pomadas ou ampolas — retêm traços de medicamentos, mesmo após o consumo completo. Esses resíduos podem conter princípios ativos com ação farmacológica, que contaminam solo e água se descartados no lixo comum.

“O problema não é apenas uma embalagem isolada, mas o acúmulo de resíduos em lixos domésticos, lixões ou aterros, onde não há tratamento adequado para esse tipo de resíduo químico”, explica.

 

Foto: Divulgação | Grupo RD

Algumas substâncias presentes nos medicamentos (como antibióticos, hormônios e anti-inflamatórios) não se degradam facilmente no ambiente, podendo persistir e afetar organismos aquáticos e micro-organismos do solo, mesmo em concentrações muito baixas.

Além disso, os blisters, por exemplo, combinam alumínio e plástico, o que dificulta sua reciclagem e aumenta o risco de descarte incorreto. Frascos de vidro ou plástico também requerem cuidado por conta do risco físico (quebras, ferimentos) e contaminação residual.

5 – Medicamento vencido há mais tempo perde a eficácia, então pode ir para o lixo comum.

Estar “mais vencido” não reduz o risco ambiental. “O prazo de validade indica segurança de uso, mas o risco ambiental permanece mesmo após vencido”, esclarece o farmacêutico.

6 – Se estiver dentro da validade, posso doá‑lo. 

Cuidado. Doar medicamentos que sobraram em casa pode parecer um gesto de solidariedade, mas envolve riscos importantes para a saúde. Mesmo dentro do prazo de validade, esses produtos podem ter sido armazenados de forma inadequada — em locais úmidos, quentes ou expostos à luz —, o que compromete sua eficácia e até pode gerar substâncias nocivas. Além disso, frascos abertos, cartelas violadas e a falta de bula ou embalagem original aumentam as chances de contaminação e uso incorreto.

Outro perigo está na automedicação: quem recebe o medicamento doado pode utilizá-lo sem prescrição médica, agravando doenças, mascarando sintomas ou provocando interações perigosas com outros fármacos. Crianças, idosos e pessoas com condições crônicas são os mais vulneráveis. Por isso, Carmila Ahrens alerta que a doação de medicamentos só deve ocorrer por meio de programas oficiais, em farmácias solidárias ou unidades de saúde autorizadas. “Fora desses canais, um ato de boa vontade pode se transformar em um risco sério à vida”, ressalta.

Foto: Roberto Sorin | Unsplash

7 – Não é problema meu, a indústria ou o governo são responsáveis.

Pela legislação brasileira, a responsabilidade sobre os resíduos é compartilhada. Isso significa que todos que participam de alguma forma no ciclo de vida dos produtos tem alguma responsabilidade sobre os resíduos. E isso vale para os medicamentos.

A logística reversa dos medicamentos envolve todos: governo, empresas, farmácias e você, que comprou. A sua casa e a sua decisão são parte do descarte correto e responsável destes produtos.

Foto: Envato
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