Antes de abrir uma conta, os bancos realizam uma avaliação do cliente. São vários os critérios, desde a análise de pontuação de crédito – o famoso Score – que basicamente determina se o cliente é um “bom pagador” até análise de risco para evitar possíveis fraudes. Mas e se a situação inversa também pudesse acontecer? Se os clientes pudessem entender como os bancos lidam com o dinheiro ali depositado, onde investem e onde deixam de investir? É mais ou menos isso que busca estimular o “Guia dos Bancos Responsáveis”.
Publicado bianualmente, o documento analisa os compromissos públicos assumidos pelas instituições financeiras em relação à 18 temas, divididos em três categorias:
- Temas transversais: bem-estar animal; mudanças climáticas; corrupção; igualdade de gênero; direitos humanos; direitos trabalhistas; meio ambiente; impostos
- Temas setoriais: armas; alimentos; florestas; mineração; óleo e gás; geração de energia
- Temas operacionais: proteção ao consumidor; inclusão financeira; remuneração; transparência e prestação de contas
Em sua décima edição, “Guia dos Bancos Responsáveis” traz a avaliação dos oito maiores bancos que operam no país, e que, juntos, concentram 71,7% dos ativos do sistema bancário: Banco do Brasil, BNDES, Bradesco, BTG Pactual, Caixa Econômica Federal, Itaú Unibanco, Safra e Santander Brasil. E o resultado não é nada bom: em um ranking que vai de 0 a 10, a nota média ficou em 3,3 entre os 18 temas avaliados.
Avaliando separadamente cada tema, as notas caem drasticamente. Em relação às práticas para garantir uma alimentação adequada à população, tanto em suas próprias operações quanto na concessão de crédito e nos seus investimentos, por exemplo, a nota média dos bancos ficou em míseros 0,7.
Segundo o Idec, a avaliação é feita não só em relação à operação interna do banco, mas também para quatro categorias de serviços financeiros: os créditos corporativos, o financiamento de projetos, a gestão de recursos próprios e a gestão de recursos de terceiros.
O projeto é coordenado pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) em coalizão com outras quatro organizações da sociedade civil brasileira: a Conectas Direitos Humanos, o Instituto Sou da Paz, a Oxfam Brasil e a Proteção Animal Mundial.
O Guia dos Bancos Responsáveis aplica a metodologia desenvolvida pela rede da Fair Finance International e pela Profundo, uma consultoria de sustentabilidade sediada nos Países Baixos.
Confira abaixo dois destaques apontados pelo Idec entre os vários temas abordados: alimentação e mudanças climáticas
Alimentos
No guia, o tema “alimentos” avalia a garantia de uma alimentação adequada, com foco em elementos relacionados ao agronegócio e à indústria alimentícia. Espera-se que os bancos priorizem a concessão de crédito ou incentivem as empresas financiadas a reduzirem o uso de agrotóxicos e promoverem o tratamento adequado dos animais de produção. Também são pontuados os esforços para incentivar a agricultura orgânica e reduzir o consumo de carne animal.
O tema “alimentos” foi um dos piores avaliados nesta edição, ficando atrás apenas de “bem-estar animal”. Na avaliação, ficou evidente a ausência de políticas voltadas à promoção de uma alimentação livre de agrotóxicos e à garantia do bem-estar animal por parte dos bancos e das empresas que financiam.
Nenhum dos bancos possui o compromisso de que seus financiamentos e investimentos garantirão o direito à uma alimentação saudável e adequada. Os bancos zerados possuem esta média por não apresentarem qualquer política que exija das empresas compromissos para a diminuição do uso de agrotóxicos em suas produções agrícolas, ou que previnam as emissões diretas e indiretas de seus projetos de substâncias tóxicas como amônia e óxido de nitrogênio, e não incentivam uma estratégia a médio e longo prazo para que empresas troquem a proteína animal por fontes alternativas de proteína.
O BNDES obteve a melhor média no tema, embora ainda esteja aquém do ideal. Sua política de ecoeficiência valoriza a redução de gases, efluentes e resíduos, além de exigir que empresas com grandes projetos publiquem relatórios de sustentabilidade.
O Banco do Brasil pontuou por incentivar, em sua política de crédito, a redução do uso de fertilizantes nitrogenados e por incluir agrotóxicos e pesticidas em sua lista de restrições.
A Caixa também recomenda a limitação do uso de agrotóxicos e, em seu guia de 2016 sobre agricultura, incentiva as empresas a adotarem um sistema que abranja informações e estratégias socioambientais de seus fornecedores. No entanto, trata-se apenas de uma recomendação, quando, na verdade, deveria ser uma política.
“Antes de decidir investir dinheiro em determinado projeto, o banco tem a obrigação de fazer uma avaliação rigorosa dos riscos que aquele financiamento representa para as pessoas e para a natureza que podem ser afetadas por ele – e não para o investimento em si. Na situação hipotética de financiamento para uma empresa que usa agrotóxicos para produzir alimentos, tanto em casos de câncer pelo consumo deles, quanto de algum funcionário com câncer ou outras doenças devido ao manuseio do produto, ou até em grandes ações coletivas relacionadas à problemas de solo ou água que resultam em desastres, o banco deve responder por essas violações assim como a empresa financiada por ele, já que ambos tiraram proveito da atividade”, explica Julia Catão Dias, coordenadora do programa de Consumo Sustentável do Idec.
Mudanças climáticas
Já o tema de mudanças climáticas avalia a pegada de carbono das instituições financeiras e a capacidade de seus portfólios se adequarem ao cenário de 1,5°C, conforme acordado internacionalmente. Também analisa as estratégias de transição para uma economia de baixo carbono, incluindo a substituição de combustíveis fósseis por fontes de energia renováveis. Além disso, o tema examina se os bancos incentivam as empresas nas quais investem e financiam a medir, divulgar e reduzir suas emissões, e sua capacidade de eliminar gradualmente o financiamento e os investimentos em atividades com emissões de GEE inaceitavelmente altas.
A emergência climática é um assunto urgente e que ameaça todas as formas de vida. Ainda assim, até hoje os bancos Safra e BTG não instituíram metas de redução de emissões próprias em conformidade com o limite de aumento da temperatura global em 1.5ºC. Além disso, não fazem a publicação do inventário das emissões de gases do efeito estufa de suas carteiras de crédito e investimento. Somado a tudo isso, tanto esses dois bancos quanto a Caixa Federal, não possuem estratégias de phase-out, ou seja, de desinvestimento, para a mineração, exploração de carvão mineral, térmico, petróleo e gás.
Banco do Brasil, BNDES, Bradesco, Itaú e Santander apresentam políticas de exclusão e estratégias de phase out gradual de financiamentos a projetos e empresas que fazem mineração, exploração e desenvolvimento de minas de carvão mineral, térmico, energia gerada a carvão, extração de petróleo e gás não convencional.
A maior parte dos bancos avaliados aplicam essas políticas apenas para seus financiamentos, com exceção do Banco do Brasil e do Itaú, que aplicam políticas restritivas para seus investimentos próprios no setor de carvão mineral e térmico.
Além disso, quase todos os bancos não disponibilizam informações sobre as suas emissões absolutas de gases do efeito estufa de escopo 1, 2 e 3, associadas a todo o seu portfólio de financiamento e investimento. Sem este tipo de informação, fica ainda mais difícil enfrentar o problema.
As instituições financeiras também negligenciam compromissos de desinvestimento em setores críticos, como na exploração de óleo e gás.
Outro ponto que merece atenção é a ausência de salvaguardas climáticas em relação à gestão de ativos próprios e de terceiros. Mais uma vez, para as carteiras de investimento, os compromissos são praticamente inexistentes.
Expectativas versus realidade
O Idec salienta que o cenário atual geral indica um distanciamento preocupante em relação às expectativas da sociedade civil e às urgências impostas pela emergência climática e demais crises socioambientais que enfrentamos, apontando para a necessidade da incorporação de compromissos e diretrizes mais rigorosas por parte dos bancos.
“É essencial que os bancos incorporem em suas políticas critérios rigorosos em matéria socioambiental e climática e, mais do que isso, que apliquem, na prática, medidas efetivas para prevenir, mitigar e reparar as violações de direitos fruto das atividades das empresas que financiam ou nas quais investem”, conclui o Instituto.
Veja aqui como seu banco está avaliado em cada tema analisado. Pela própria plataforma é possível enviar uma reclamação direto para o banco! É um convite para a população mostrar que se importa com o próprio dinheiro.

