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Mediador Warao amplia acolhimento a indígenas na fronteira

Em Pacaraima, atuação intercultural garante escuta, tradução e acesso a direitos a indígenas venezuelanos em deslocamento

Published 24/04/2026

Dentre as etnias mais atendidas por Gabriel, estão os povos Warao, Taurepang, Wayúu, Kari'ña, E’ñepa, mas ele se orgulha em identificar outras tantas no Posto de Triagem da Operação Acolhida. Foto: Miguel Pachioni | ACNUR

“O Warao que ajudou a todos os indígenas”, é assim que Gabriel Zapata, 24 anos, quer ser lembrado: como o indígena que ajudou diferentes etnias vindas da Venezuela. Ele atua como mediador intercultural no Serviço Jesuítas para Migrantes e Refugiados (SJMR), parceiro da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), e vive em Pacaraima, em Roraima, na fronteira norte do Brasil. Ali, conduz de perto a chegada de pessoas indígenas em busca de proteção, realizando identificação, atendimento e acompanhamento. No dia a dia, o trabalho vai além do acolhimento formal: envolve escuta, troca e reconhecimento das diferenças culturais. “Eu gosto de fazer perguntas, conhecer as culturas, aprender algumas palavras do dialeto da pessoa e ter essa troca de conhecimentos”, conta. Para ele, considerar as especificidades de cada etnia é essencial, especialmente diante da insegurança de quem vem pela primeira vez. “Muitas pessoas chegam aqui e acham que como indígenas não vão receber atenção”.

Indígena do povo Warao, Gabriel explica que a maior parte da demanda vem de sua própria etnia, mas o contato constante com diferentes grupos revelou uma lacuna importante: muitos passavam despercebidos ou sequer eram identificados. Desde que assumiu a função, já mapeou 19 etnias indígenas venezuelanas dentro do fluxo da Operação Acolhida, evidenciando a diversidade que atravessa a fronteira. Nesse contexto, o papel da mediação intercultural se torna estratégico, como destaca Davide Torzilli, representante do ACNUR no Brasil. “Pessoas refugiadas costumam chegar a um novo país bastante fragilizadas, com muitos medos e inseguranças. Mas há grupos que chegam em situações ainda mais vulneráveis, como é o caso de pessoas indígenas. É por isso que essas pessoas precisam de apoio específico, considerando suas necessidades e particularidades de suas culturas e tradições. Viabilizar a contratação de um mediador intercultural indígena com a parceria de SJMR é oferecer conforto e confiança a elas”.

A trajetória de Gabriel na área humanitária começou em 2022, quando atuou como voluntário em um antigo abrigo da Operação Acolhida, em Boa Vista. Na época, alfabetizava crianças e jovens indígenas, contribuindo para que pudessem ingressar no sistema educacional brasileiro. A experiência abriu caminho para novas oportunidades: chamou a atenção do Instituto Pirilampos, que desenvolve atividades lúdico-pedagógicas em abrigos, hospitais, casas de repouso, comunidades rurais e indígenas. Contratado como mobilizador comunitário, passou a atuar como intérprete no abrigo Waraotuma a Tuaranoko, intermediando informações essenciais para a comunidade. “Meu papel era receber as informações e levar para a comunidade. Essas informações eram em português e os indígenas Warao não conseguiam se comunicar. Eu traduzia do português para o Warao. Era meio difícil. Eu ainda estava aprendendo português”, relembra.

Além de se comunicar no dialeto Warao, Gabriel fala com fluência espanhol e português e arrisca frases em outros dialetos indígenas para atender as etnias que chegam em Pacaraima. Foto: Miguel Pachioni | ACNUR

Hoje, além da mediação, ele segue como intérprete, trabalhando com português, espanhol e Warao, acompanhando tanto quem acaba de chegar ao Brasil e precisa emitir documentos quanto aqueles que já estão no país e buscam renovação. O vínculo cultural faz diferença no atendimento e ajuda a construir confiança desde o primeiro contato. “Eu me apresento, falo o meu cargo e depois explico os serviços que presto como mediador intercultural. Eu faço eles saberem que eu vou dar atendimento por ser parte de uma etnia indígena. E que eles vão receber um atendimento diferenciado”.

A importância dessa representação se revela também em histórias marcantes do cotidiano. “Quando comecei como mediador, logo na primeira semana, chegou à Pacaraima uma família que tinha mais ou menos 36 pessoas Warao. Nesse grupo, havia uma mulher grávida. Pouco tempo após a chegada, ela deu à luz à criança. Eu já tinha feito o atendimento dela. Prestei apoio como mediador e os pais me perguntaram se podiam colocar o nome da criança de Gabriel Jesus, como forma de agradecimento a mim e aos Jesuítas. Eu estou representando essa gente também”, relata, emocionado.

Desde 1991, o IBGE inclui indígenas no censo demográfico nacional. Em 2022, foram registradas 1.693.535 pessoas indígenas no Brasil, pertencentes a 391 etnias e falantes de 295 línguas. No caso dos indígenas vindos da Venezuela em situação de refúgio ou migração, dados do sistema proGres, do ACNUR, indicam que, até março de 2026, havia 13.962 pessoas no país, enquanto o Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) registrava, no mesmo período, 9,4 mil indígenas refugiados e migrantes em diferentes estados.

Para Gabriel, ampliar a presença indígena em espaços institucionais é fundamental para garantir direitos e preservar culturas. “É muito importante ter representação indígena numa sociedade. Assegura as tradições e culturas das várias etnias, que fazem parte da diversidade que existe aqui no Brasil”, afirma. Seu objetivo, como indígena Warao, é levar esse aprendizado de volta à Venezuela, compartilhando experiências sobre autonomia e participação. “Quero demonstrar esse conhecimento às comunidades na Venezuela e que elas saibam da autonomia que se tem aqui”, diz.

No Brasil, o 19 de abril marca o Dia Nacional dos Povos Indígenas, uma data que convida à reflexão sobre a importância dessas culturas na formação da identidade do país e amplia o debate sobre os desafios enfrentados por esses povos. Com o aumento do fluxo de pessoas refugiadas e migrantes da Venezuela, o ACNUR passou a desenvolver ações específicas voltadas às populações indígenas do país vizinho. Desde 2025, essas iniciativas — incluindo a contratação de Gabriel como mediador intercultural — contam com o apoio do Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, parceria entre Nações Unidas, Governo do Brasil e Consórcio Amazônia Legal, com financiamento do Governo do Canadá. No ano passado, durante a COP30, foi firmado um Memorando de Entendimento entre o ACNUR e o Ministério dos Povos Indígenas, estabelecendo bases de cooperação para fortalecer políticas públicas culturalmente adequadas, ampliar a capacidade institucional de estados e municípios, promover a convivência pacífica entre comunidades indígenas anfitriãs e indígenas refugiadas, além de incentivar liderança, participação e organização comunitária.

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