Oficinas de ervas medicinais, mutirões de limpeza e reflorestamento, hortas comunitárias, rodas de conversa sobre direitos, rituais e apresentações artísticas. Ações que, em comum, têm o cuidado como força política, ecológica e cultural. Reunidas no Circuito Cuidado & Clima, essas práticas formam um mapa vivo de 20 iniciativas da Grande Belém que mostram, na prática, como o cuidado pode ser uma resposta concreta à crise climática.
Promovido pelo Instituto Procomum, o Circuito Cuidado & Clima celebra o protagonismo de coletivos e organizações de base que regeneram territórios, produzem alimentos, fortalecem redes solidárias e transformam cultura em ação climática. As atividades acontecem em diferentes bairros e comunidades de Belém e Ananindeua, integrando a programação da Rota da COP30, com vivências abertas ao público ao longo de novembro.
O Circuito Cuidado & Clima foi lançado no último domingo (9), no Espaço EcoAmazônias, localizado no bairro do Jurunas, uma das áreas periféricas mais pulsantes de Belém. O local, gerido por coletivos da própria comunidade, é um símbolo da potência das periferias amazônicas como espaços de resistência, cultura e inovação cidadã.
As iniciativas foram selecionadas por meio de uma chamada pública que recebeu 108 propostas da região metropolitana de Belém e Ananindeua, revelando a diversidade e força da Amazônia urbana e ribeirinha. O resultado é um mosaico de práticas ancestrais e tecnologias sociais, colocando o cuidado no centro das soluções climáticas e mostrando como a ação comunitária pode regenerar territórios e inspirar políticas públicas.
Segundo Georgia Nicolau, diretora do Instituto Procomum, essas experiências mostram que o cuidado é uma tecnologia do comum, uma força regenerativa que nasce dos territórios. “Essa é uma agenda que precisa estar mais visível, ser reconhecida e valorizada. Temos soluções sendo criadas nos territórios pelas próprias comunidades. São práticas inovadoras que, ao serem visibilizadas, podem ser replicadas, distribuir conhecimento e se tornar políticas públicas”, completa. Ela explica que o trabalho de cuidado faz parte da reconstrução dos pactos coletivos e da reorganização social necessária para enfrentar a crise climática.
Conheça algumas das iniciativas:
Cuidar do Lixo é Cuidar da Vida
Local: Centro de triagem do Canal São Joaquim, bairro Maracangalha, s/n
Data e horário: 14 de novembro, das 8h às 10h
Descrição: Atividade de educação ambiental voltada à conscientização sobre separação correta dos resíduos e fortalecimento da coleta seletiva. Promove o respeito ao meio ambiente e incentiva práticas sustentáveis no cotidiano, mostrando como pequenas atitudes geram grandes transformações.
Proponente: Maria do Socorro dos Santos Ribeiro.
Roda de Conversa – Juventude, Trabalho e Clima: Cuidando do Futuro no Tapanã
Local: EEEF Aldebaro Klautau | Rua Marcílio Pinheiro, 270 – Curuçambá, Belém – PA
Data e horário: 14 de novembro, das 8h às 13h
Descrição: Reúne 50 jovens de escolas públicas para refletir sobre os desafios e oportunidades de inserção profissional em meio às mudanças climáticas. As atividades envolvem palestras e dinâmicas criativas, culminando na elaboração da “Carta da Juventude do Tapanã sobre Trabalho e Clima”.
Proponente: Jefferson dos Santos Mota.
O Valor social das Trabalhadoras e Trabalhadores Domésticos pela Igualdade nas Lutas e Equiparação de Direitos
Local: Rua Osvaldo Cruz 61, esquina da AV. Ceará no bairro da Águas lindas Belém/PA
Data e horário: 15 de novembro, das 9h às 10h
Descrição: Manhã de serviços e debates voltada à categoria das trabalhadoras domésticas, com atendimentos jurídicos, distribuição de materiais informativos e roda de conversa sobre justiça climática e transição justa. A iniciativa conecta direitos trabalhistas, gênero e clima, reforçando a consciência sobre a relação entre trabalho, território e justiça ambiental.
Proponente: Lucileide Mafra Reis
Vivência de Carimbó: ritmo, poesia e ancestralidade
Local: Ponto de Cultura Casa do Mestre Apolo da Caratateua (Passagem Srg. Bastos, 148 – Itaiteua/Ilha de Caratatateua)
Data e horário: 15 de novembro, das 16h às 20h
Descrição: A atividade propõe vivências práticas e rodas de Carimbó, integrando ritmo, poesia e ancestralidade, com enfoque na educação comunitária e preservação da cultura popular amazônica.
Vivência de Carimbó: ritmo, poesia e ancestralidade
Local: Casa da Cobra (Trav. Maués, 30 – Parque Guajará, Icoaraci)
Data e horário: 16 de novembro, das 10h às 15h
Descrição: Apresentar as experiências de vivências, práticas e conhecimentos adquiridos ao longo do tempo sobre o Carimbó como Patrimônio Cultural e Imaterial Brasileiro, seus instrumentos tradicionais, seus sotaques em diferentes regiões, o papel das mulheres da organização comunitária ao canto, composição e dança. As características urbanas, rurais e ribeirinhas de seus grupos, mestras e mestres. As novas estéticas sonoras e visuais no contexto urbano. O advento das novas mídias online e o avanço do audiovisual no processo de documentação, repasse e divulgação desta Cultura Popular paraense.
Imersão Ecológica do Cuidado no Quilombo do Abacatal para Educadoras e Educadores Populares
Local: Território Quilombola do Abacatal – Estrada do Aurá, Ananindeua (PA)
Data e horário: 17 de novembro, das 9h às 15h
Descrição: A Imersão Ecológica do Cuidado no Quilombo do Abacatal propõe um momento de acolhimento, escuta, troca de saberes, cura e fortalecimento para educadoras e educadores populares. A atividade convida à vivência coletiva e espiritual da relação entre corpo, terra e comunidade, especialmente no contexto das mobilizações que antecedem a COP30 em Belém.
Proponente: Juscelio Mauro de Mendonça Pantoja
Templo de Umbanda Caboclo Rompe Mato – Projeto Capim Santo
Local: Sede do Movimento das Mulheres das Ilhas em Cotijuba (MMIB) | Rua Magalhães Barata, nº 925 – Ilha de Cotijuba – Belém – PA
Data e horário: 18 de novembro, das 8h às 13h
Descrição: A proposta Capim Santo integra saberes tradicionais sobre ervas medicinais com práticas de educação ambiental e cuidado coletivo. Nascida da experiência do terreiro como uma escola-viva, a iniciativa valoriza o uso das plantas para além do ritual, como caminhos de saúde, memória e preservação. O projeto prevê rodas de conversa, oficina de cultivo sustentável e partilha de receitas naturais, estimulando o reconhecimento do valor cultural e ecológico das ervas. Voltado especialmente para mulheres e jovens, busca fortalecer vínculos comunitários e transmitir saberes ancestrais de forma prática e criativa. O objetivo é mostrar que cuidar do corpo e da comunidade é também cuidar do território, reforçando a conexão entre espiritualidade, meio ambiente e o enfrentamento da crise climática.
Proponente: Márcia Andréa Oliveira do Rosário
A programação completa do, com oficinas, mutirões, rodas de conversa e apresentações, está disponível em: https://confluenciasdoscuidados.procomum.org/programacao.
Cuidado e financiamento descentralizado
O Circuito faz parte do projeto internacional Confluências dos Cuidados no Sul Global, uma iniciativa do Instituto Procomum (Brasil) em parceria com a Rádio Savia (Colômbia/México) e a Rede Sul x Sul, com apoio da UMI Fund e do Fundo Casa Socioambiental. O projeto, que conecta experiências do Sul Global que relacionam cuidado, justiça climática e regeneração social como caminhos para uma transição justa, está também promovendo um mapeamento amplo sobre cuidado no sul global, contextualizando o significado nos vários territórios, e produzindo um documentário.
Durante a COP30, o Circuito também integra a programação ampliada da Confluências dos Cuidados, que culmina no Pavilhão dos Cuidados, evento internacional coorganizado pelo Instituto Procomum e pela Aliança Global dos Cuidados, nos dias 15 e 16 de novembro, em Belém. “Essa é a primeira vez que um espaço com esse enfoque será realizado em uma COP”, comenta Georgia Nicolau.
Além dessa agenda, o Instituto Procomum também participa da Casa Sul Global, espaço descentralizado que articula o debate sobre financiamento climático e fortalecimento da sociedade civil, defendendo que os recursos e as decisões precisam chegar às comunidades e organizações locais que já constroem soluções concretas. E no dia 13 de novembro, às 16h, a diretora do Instituto Procomum, Georgia Haddad Nicolau, participa da mesa “A care-centred just transition: challenges and opportunities”, no Pavilhão da World Green Economy Organization (WGEO), na Blue Zone da COP30, em Belém. A sessão, organizada por instituições como UNRISD, IDRC, Global Alliance for Care e Global Afro Descendant Climate Justice Collaborative, discute o papel central do cuidado, em suas dimensões formais e informais, como infraestrutura essencial para uma transição justa e regenerativa.
Instituto Procomum
O Instituto Procomum é uma organização da sociedade civil que completa 10 anos em 2026. Atua em território nacional e no Sul Global, com presença em redes nacionais e internacionais, conectando comunidades e mobilizando saberes para fortalecer a democracia e a justiça socioclimática. Desde 2016, desenvolve projetos e metodologias colaborativas que unem arte, tecnologia, cuidado e inovação cidadã, promovendo a cultura do comum e a regeneração de territórios. O Procomum acredita na potência da ação coletiva para transformar o presente e imaginar futuros mais solidários, sustentáveis e criativos. Saiba mais: www.procomum.org

