Comunidades tradicionais da Bahia lançaram um livro para levar os saberes do Cerrado às escolas públicas. O material pedagógico, disponível gratuitamente para download, reúne histórias, cultura e questões ambientais do bioma a partir da realidade de povos de Fundo e Fecho de Pasto da região de Correntina (BA).
Em vez de personagens distantes dos livros didáticos tradicionais, estudantes aprendem biografia a partir da história de uma parteira da própria comunidade. Também conhecem trajetórias de uma benzedeira, de um vaqueiro que se tornou liderança na luta pela terra, de uma mulher que uniu fé e militância política e de uma liderança quilombola que representou o Brasil em encontros internacionais de mulheres camponesas.
O livro “Território que Ensina: Saberes do Cerrado na Escola” foi desenvolvido pela Associação Comunitária dos Pequenos Criadores de Fecho de Pasto de Clemente (ACCFC), na Bahia, em parceria com professores, estudantes, organizações sociais e moradores da região. Os autores definem a obra como um “mapa afetivo e pedagógico”, pensado para transformar o espaço onde os alunos vivem em uma sala de aula viva e fortalecer a valorização das origens, crenças e práticas ancestrais.
A publicação foi elaborada pela pesquisadora e professora da rede municipal Raquel da Costa Barbosa, que nasceu em uma comunidade tradicional da região. O material é voltado para estudantes da Educação Infantil ao 9º ano do Ensino Fundamental.
A proposta é que o livro seja incorporado ao planejamento pedagógico das escolas sem substituir o currículo oficial. A ideia é enriquecer o ensino com referências locais. “Se o currículo exige que o aluno do quinto ano compreenda o gênero textual biografia, ele vai aprender biografia, mas a partir da história de uma parteira da comunidade”, explica Raquel.
Quem conta a história do Cerrado
Segundo o coordenador da publicação e integrante da Associação, Eldo Moreira Barreto, o projeto surgiu da necessidade de crianças e jovens refletirem sobre si mesmos e sobre o lugar onde vivem. Mas a iniciativa também responde ao avanço da influência do agronegócio nos conteúdos escolares.
Uma reportagem do Aos Fatos mostrou que o mercado editorial tem sofrido pressão para retirar de livros didáticos conteúdos considerados negativos para o agronegócio.
Raquel afirma que materiais produzidos pelo setor circulam nas escolas da região há anos, muitas vezes acompanhados de premiações para alunos e contrapartidas para instituições de ensino.
“Do ponto de vista pedagógico, esses materiais são bem elaborados. Mas do ponto de vista ideológico é que a gente precisa discutir. Eles entram pela porta da frente”, afirma. “Nós precisamos disputar por dentro da escola.”
Eldo diz que existe um processo de apagamento das identidades locais. “O agronegócio produz material didático para as escolas enquanto as crianças, os jovens e toda a comunidade, que são os sujeitos desse espaço, ficam sem se ver representados.”
Identidade como conteúdo
Para Raquel, o reconhecimento da própria realidade dentro da escola pode transformar a relação dos estudantes com a aprendizagem.
“Quando o estudante se enxerga no material, ele passa a entender que aquela cultura é importante. A gente precisa trazer uma ideia de valorização para que essa criança, desde a educação infantil, consiga se reconhecer e reconhecer a importância da sua identidade”, diz.
em São Correntina, na Bahia. Foto: Andre Dib | Ambiental Media
Eldo afirma que o projeto é inspirado na visão de Paulo Freire sobre educação. “Não tem como avançar sem trabalhar a educação a partir dos saberes de cada sujeito”, pontua. “A gente espera que professores e estudantes encontrem nesse material a possibilidade de refletir sobre sua vida, seu local e também sobre o mundo.”
Além do Cerrado
O livro está organizado em três unidades temáticas: água, meio ambiente e cultura local. Os conteúdos seguem o calendário escolar e dialogam com datas simbólicas, como o Dia Mundial da Água, o Dia Mundial do Meio Ambiente, o Dia Nacional do Cerrado e o Dia da Consciência Negra.
Os organizadores acreditam que a experiência pode inspirar iniciativas semelhantes em outros biomas brasileiros. “Os temas centrais são água, cultura e espaço vivido. Isso pode ser adaptado à realidade de qualquer região”, afirma Eldo. O próximo passo é justamente dialogar com secretarias municipais de educação para ampliar o uso do material nas escolas e oferecer formação para professores.
A obra “Território que Ensina: Saberes do Cerrado na Escola” é uma realização da Associação Comunitária dos Pequenos Criadores de Fecho de Pasto de Clemente (ACCFC), em parceria com o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), com apoio do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), do Small Grants Programme (SGP) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
O livro já está disponível gratuitamente para download no site do ISPN.

