Aprendi a estar viva com uma monstera que cultivava em casa na época da pandemia. Ela ficava suspensa no teto do quarto por um trançado de macramê. Todos os dias, pegava um caderno e fazia o exercício de anotar as sete novidades que havia reparado nela. Era um vaso de barro, tamanho médio, terra não tão fofa, e as linhas espichando pro alto e laterais com formas verdes. Uma planta em seu processo natural de crescimento.
Assistir a vida acontecer foi estratégia interessante naquele período onde ela mais desacontecia. Era exercício proposto de um curso e também mecanismo de manutenção da esperança: um micro broto despontar do chão marrom vitalizava a alma e lembrava que sol e água eram capazes de operar o milagre, ainda que o ar tivesse povoado pelo vírus de matar humanos.
Como trabalho de conclusão do semestre, transportei a experiência para uma observação acurada do meu próprio corpo. Por uma semana me coloquei diante do espelho diariamente e anotava as sete novidades que antes não tinha reparado na minha pele. Tive a ideia depois de assistir a uma aula do bailarino Robson Lourenço. Ele encenou no teatro a coreografia do feto, os gestos de desenvolvimento de um ser humano no útero, e ensinou para a turma do curso como se forma o rosto.
Passei um tempo repetindo aquela dança assim que acordava. Não sei explicar exatamente por quê, mas parecia um jeito de estar no mundo mais inteira. Também de assimilar que, como as plantas, sempre atravessamos algum processo biológico de transformação. A experiência mudou profundamente minha relação com o corpo e despertou o desejo de observá-lo com mais atenção. O desafio era o mesmo da monstera: suspender o julgamento e apenas assistir à natureza acontecendo.
Algumas experiências fincam raízes profundas na gente. E brotam na superfície quando não se espera. Há três meses me vi diante da vida desacontecendo. O verbo é no gerúndio, porque acompanhei o processo. Minha tia em uma cama hospitalar, depois de uma longa jornada de tratamento de um câncer reincidente que voltou metastático e incurável para a medicina. Eu estava ali, com outros familiares, ao lado dela, no seu último dia de vida.
Para além da dor de presenciar alguém que se ama partir, foi curioso que por alguns instantes me lembrei da monstera. E de todas as outras plantas que passei a olhar com mais qualidade de presença depois daquela proposta de observação com ela. Eu tinha ali, diante de mim, uma manifestação da natureza em seu processo ativo de morte. Tudo o que vive, em algum momento morre, essa é a lei incontestável, e mais uma vez eu podia testemunhar isso. Agora, não com um corpo de planta, mas com um corpo de gente. O corpo da minha tia. Talvez, esse tema seja delicado para alguém, então quero deixar um aviso sobre o que se segue: nas próximas linhas vou descrever o que vivi no quarto 5008 do Hospital Santa Paula em abril passado. A experiência radical de presenciar a partida de alguém. E a experiência natural que é um corpo morrer.
Lembrei da monstera porque no curso A Natureza que Somos, em que fiz aquele primeiro exercício de observação, a amiga e educadora Rita Mendonça falou sobre a “cor de maravilha”, tonalidade presente nos brotos e em quase tudo o que nasce. Era essa a cor da minha tia quando cheguei ao hospital naquela manhã. Ela estava febril, quente, com o rosto corado. Hoje imagino, sem nenhuma pretensão biológica ou médica, que aquilo talvez fosse a própria pulsão da vida. Como se, para morrer, o corpo precisasse antes invocar o nascimento.
Ao longo do dia, porém, a cor foi desaparecendo. O corpo empalideceu – como a plantinha que amarela e se desprende da terra – as extremidades ficaram frias e a respiração perdeu força até um último suspiro, pela boca. Naquela cena havia uma tristeza retumbante, mas também um espanto sereno. Pela primeira vez, eu observava a natureza humana no instante em que encerrava um ciclo. Aprendia alguma coisa sobre o morrer, sobre as transformações silenciosas daquele momento. Era como voltar ao espelho diante do qual observei meu próprio corpo acontecer em sete pequenas novidades diárias e, ao mesmo tempo, encontrar outro espelho: o da vida biológica deixando de existir.
Venho atravessando lutos consecutivos em um curto espaço de tempo. Além da minha tia e de um tio, perdi meu pai, numa jornada em que o corpo também foi revelando, pouco a pouco, sua própria finitude. Este é um tempo em que ouço um convite para me aproximar dos encerramentos. E em meio ao processo de elaboração, percebo meu olhar mais atento para as plantas secas, para os galhos vazios, para as raízes soltas.
Naqueles últimos minutos da vida da minha tia, tivemos o privilégio da companhia de uma médica sensível e acolhedora. Quando o corpo parou, ela olhou para mim e para a minha prima e perguntou: o que ela deixa de legado? O que ensinou para vocês? Desde então, essa pergunta permanece comigo. O que fica do que parte? Porque a lembrança é a forma que a presença encontra de continuar viva dentro da gente. Como a planta que morre e é incorporada pela terra. Pensei nisso outro dia: a plantinha que o chão absorve vira memória em forma de adubo. Deixa de existir como indivíduo, mas passa a sustentar outras formas de existência. Talvez a vida conheça meios de permanecer que nem sempre sabemos nomear.

