Ícone do site

A filantropia brasileira e o vazio estratégico da mobilidade urbana

Murilo Casagrande, diretor do Instituto Aromeiazero, fala sobre como a filantropia brasileira segue distante de temas essenciais

Published 15/12/2025
avenida paulista

Foto: Guilherme Stecanella | Unsplash

Nos últimos anos, o Brasil viveu transformações que revelam duas trajetórias simultâneas e contraditórias. De um lado, caiu o número de pessoas abaixo da linha da pobreza. De outro, o país segue aprofundando a desigualdade estrutural, registra um número crescente de bilionários e enfrenta ataques diretos à democracia. Nesse cenário, cresce também o debate sobre o papel do investimento social privado — e seus limites.

As novas pesquisas Filantropia & Family Offices – Perspectivas e Oportunidades da Agenda de Filantropia em FOs e o Censo do Grupo de Institutos e Fundações Empresariais (GIFE) 2024–2025 ajudam a entender como o topo da pirâmide econômica está se movimentando no campo da filantropia. E, ao mesmo tempo, expõem um problema central: ainda que haja avanços, a filantropia brasileira permanece distante de temas essenciais para o direito à cidade e para a democracia, como mobilidade urbana, planejamento urbano e acesso equitativo ao espaço público.

A pesquisa recente sobre Filantropia & Family Offices, feita por Juliana de Paula e Cássio Aoqui (que vai aparecer novamente neste artigo), com patrocínio do Instituto ACP e do Movimento Bem Maior, mostra um ecossistema em expansão, mas pouco conectado aos desafios estruturais do país. Segundo a Anbima, o número de Family Offices e Multi Family Offices saltou de 80 entidades em 2020 para 146 em 2023, administrando R$ 457,7 bilhões — quase o dobro do valor registrado apenas três anos antes.

Imagem: Pixabay

O setor divide-se quase igualmente entre Single Family Offices (estruturas dedicadas a uma única família) e Multi Family Offices (que atendem várias famílias). Os Multi tendem a ser mais reativos e avessos a riscos, inclusive no campo social. Apesar do crescimento, a filantropia não é prioridade — muitas vezes por falta de conhecimento e por receio de agregar “problemas” à rotina operacional. A pesquisa recomenda especial atenção à nova geração e às mulheres, que têm puxado mudanças culturais importantes.

A pergunta que fica: como fazer com que os Family Offices deixem de ser apenas gestores de patrimônio e passem a ser influenciadores da cultura de doação das famílias que atendem?

Já o Censo GIFE 2024–2025, o maior da série histórica às vésperas dos 30 anos do GIFE, apresenta um retrato abrangente do investimento social privado no Brasil. Seu lançamento ocorreu no Itaú Cultural e foi transmitido pela internet — vale conferir a gravação. Resumindo o que mais me chamou atenção: o volume total investido chegou a R$ 5,8 bilhões, recorde fora do pico excepcional da pandemia; empresas ainda são quem mais investe; já as Fundações e Institutos Familiares registram retração desde 2012 (de R$ 920 milhões para apenas R$ 395 milhões); os Fundos Independentes são o grupo que mais cresce, saltando de R$ 400 milhões para R$ 1,1 bilhão; os incentivos fiscais voltaram ao patamar pré-pandemia (15%); e houve recorde de repasses a OSCs: R$ 1,3 bilhão.

Porém, a governança do setor ainda é profundamente desigual: homens brancos seguem dominando os cargos de direção; apenas 18% das organizações possuem conselhos com pessoas negras, indígenas ou amarelas.

Foto: Simp1e123 por Pixabay

E, pela primeira vez, o Censo mediu investimentos relacionados a clima e mudanças climáticas, que somaram 6% do total (R$ 368 milhões). Mas talvez um dado mais revelador seja este: entre todas as 63 organizações que investem em temas ambientais, nenhuma declarou atuar em mobilidade urbana. Ou seja: mesmo sendo um pilar absoluto do direito à cidade e um dos maiores fatores de desigualdade urbana, a mobilidade simplesmente não existe no radar filantrópico institucional brasileiro.

Nos debates do lançamento do Censo, esses desafios ficaram evidentes. Carola Matarazzo lembrou que a filantropia é campo de inovação e experimentação; Maria Luiza, da Suzano, ressaltou que inclusão produtiva de jovens é fundamental, mas isoladamente insuficiente para romper ciclos de pobreza; Lia Glaz chamou atenção para a queda nos investimentos em educação e para o potencial de articulação ESG–filantropia.

Anderson, da Agência Mural, apontou a contradição: a comunicação é considerada essencial, mas é a área que menos recebe recursos. Isso tem consequências diretas no debate público — especialmente às vésperas da primeira eleição brasileira marcada pelo uso intensivo de IA, em 2026.

No segundo debate, Cida Bento foi categórica ao afirmar que a sociedade civil organizada e as OSCs são alicerces da democracia, e que todos os grupos — da rua à instituição formalizada — precisam estar alinhados para enfrentar a necropolítica. Cássio Aoqui reforçou a contradição estrutural: muitos dos recursos filantrópicos vêm de rendimentos de investimentos que financiam atividades que geram os próprios problemas que o setor diz combater. A pergunta ficou no ar: até que ponto há interesse real em mudar o status quo?

Avenida Paulista. Foto: iStock

A pauta da mobilidade urbana é um exemplo cristalino dessa contradição.Ela é fundamental para a garantia do direito à cidade; chave para enfrentar desigualdade racial e de gênero; decisiva para metas de clima e emissões; ponto central para a segurança de populações periféricas; e estruturante para produtividade, saúde pública e democracia.

E, ainda assim, não aparece no engajamento filantrópico institucional — tampouco na agenda dos Family Offices. O retrato combinado das duas pesquisas sugere que Family Offices têm patrimônio, estrutura e potencial de influência, mas pouco conhecimento sobre causas estruturais. O investimento social privado mapeado pelo GIFE tem se diversificado, mas não toca em temas de base que moldam a vida nas cidades.

Mesmo com mais recursos, a filantropia brasileira é pouco ousada, sobretudo no enfrentamento às desigualdades urbanas. A ausência de investimento em mobilidade revela a persistência de uma filantropia que atua em torno dos efeitos, não das causas. Há uma desconexão profunda entre o Brasil que se pretende democrático e o Brasil que se permite fragmentar por falta de políticas urbanas integradas.

Mobilidade urbana não é apenas ônibus, trem, bicicleta ou infraestrutura: é disputa por território, tempo, renda, saúde, segurança, cuidado, gênero, raça e clima. Ignorá-la é continuar administrando a desigualdade — e não a enfrentar. A filantropia não substituirá políticas públicas, nem resolverá sozinha a desigualdade. Mas pode ter coragem de financiar quem está onde quase ninguém está atuando.

Artigo enviado por Murilo Casagrande, diretor do Instituto Aromeiazero

Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.
Sair da versão mobile