Ícone do site

A Copa do Mundo também está jogando contra o clima

Em 97 das 104 partidas, o calor pode prejudicar a performance dos jogadores – e mega eventos contribuem para mudar o clima

Published 24/06/2026
taça de futebol

Foto: Fauzan Saari | Unsplash

A imagem é conhecida: camisas coloridas, bandeiras nas arquibancadas, gente reunida em bares, praças e salas de estar para ver a bola rolar. A Copa do Mundo talvez seja uma das poucas experiências globais ainda capazes de suspender, por noventa minutos, a sensação de que cada país vive dentro de sua própria bolha.

Mas, em 2026, há outro jogador em campo. Ele não veste uniforme, não aparece no placar e não respeita fronteiras: o calor extremo.

A Copa realizada nos Estados Unidos, Canadá e México é a maior da história: 48 seleções, 104 partidas, 16 cidades-sede e deslocamentos continentais. É também uma vitrine incômoda de um tema que o esporte não pode mais tratar como nota de rodapé: a crise climática já está mudando a forma como jogamos, torcemos, viajamos e organizamos grandes eventos.

Foto: Hans Reniers na Unsplash

Segundo a World Weather Attribution, 26 partidas da Copa de 2026 devem ocorrer sob condições de pelo menos 26°C de WBGT, índice que mede calor, umidade, radiação solar e vento. Traduzindo: não é apenas “temperatura alta”. É uma medida mais próxima do que o corpo sente quando tenta se resfriar. Em nove desses jogos, a previsão envolve estádios sem refrigeração. Para o limite de 28°C de WBGT, considerado mais severo, a estimativa é de cinco partidas em 2026, contra três em um clima semelhante ao de 1994, quando os Estados Unidos sediaram a Copa pela última vez.

A Climate Central chegou a outro dado que ajuda a entender o tamanho do problema: em 97 das 104 partidas, a mudança climática aumentou a chance de calor capaz de prejudicar a performance dos jogadores. Quase metade dos jogos têm pelo menos 50% de probabilidade de ocorrer sob temperaturas acima de 28°C, patamar associado à perda de rendimento físico no futebol.

Isso muda o jogo. Muda a corrida, a marcação, a estratégia, o intervalo, a hidratação, a substituição. Muda também a experiência de quem assiste fora dos camarotes climatizados. Torcedores em filas, trabalhadores de segurança, equipes de limpeza, vendedores, motoristas, voluntários e moradores das cidades-sede são parte do evento, embora raramente apareçam na narrativa oficial.

A FIFA já prevê pausas obrigatórias para hidratação em todos os jogos e adotou medidas de adaptação, como horários mais cautelosos em cidades quentes, sistemas de resfriamento e protocolos de segurança. Nos Estados Unidos, até tempestades com raios entraram no centro da operação: partidas devem ser interrompidas se houver descarga elétrica em um raio de 12,87 km do estádio – o que aconteceu na partida entre França e Iraque. A FIFA reforçou equipes de meteorologia para antecipar paralisações e retomadas.

Foto: Chenwei Yao | Unsplash

Tudo isso é necessário. Mas não basta.

A adaptação é a resposta para o calor que já chegou. A mitigação é a pergunta que ainda incomoda: que tipo de evento estamos construindo para um planeta em aquecimento?

A pegada climática da Copa de 2026 é o ponto mais delicado dessa conversa. Estimativas independentes variam, mas apontam para um torneio entre os mais poluentes da história. A plataforma Greenly calcula que o evento pode gerar 7,8 milhões de toneladas de CO₂, mais que o dobro da Copa do Catar. Já estimativas do Scientists for Global Responsibility falam em pelo menos 9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. A principal fonte não são os estádios em si, já existentes em sua maioria, mas os deslocamentos. Aviões, conexões, torcedores cruzando países, seleções percorrendo milhares de quilômetros, equipes técnicas, imprensa, logística e transmissão.

Esse é o paradoxo da “Copa sustentável”: economiza-se em construção, mas expande-se em escala. Evita-se erguer novos estádios, mas multiplica-se o transporte aéreo. Fala-se em legado, mas o modelo continua dependente de uma lógica de crescimento permanente: mais seleções, mais jogos, mais cidades, mais deslocamentos, mais consumo.

Estádio Metlife. Foto: Anthony Quintano CC 2.0

Não se trata de cancelar a festa. O futebol importa. Ele cria vínculos, memórias, pertencimento. Para muita gente, é uma linguagem comum quando quase nada mais parece comum. Mas justamente por isso ele precisa amadurecer. O amor pelo futebol não pode servir de anestesia para a conta ambiental que chega depois do apito final.

A boa notícia é que há caminhos concretos. Megaeventos podem ser planejados com critérios mais rígidos de distância entre sedes, uso real de transporte público, bilhetes integrados, hospedagem próxima, proteção térmica para trabalhadores, sombra nas áreas externas, bebedouros, mapas de risco de calor, comunicação multilíngue e monitoramento de saúde em tempo real.

Cidades podem usar a Copa como desculpa útil para acelerar infraestrutura que fica: corredores verdes, telhados frios, pavimentos refletivos, áreas de sombra, abrigos climáticos e sistemas de alerta para ondas de calor.

Essas soluções não servem apenas para turistas. Servem para quem mora ali depois que a taça vai embora.

Foto: Pixabay

Essa é uma lição importante para o Brasil, que receberá a Copa do Mundo Feminina de 2027. Não basta perguntar se teremos estádios prontos, aeroportos funcionando e hotéis disponíveis. Precisamos perguntar se teremos planos de calor, mobilidade de baixo carbono, proteção para trabalhadoras e trabalhadores, acesso democrático aos espaços públicos e uma estratégia climática que não seja apenas uma página bonita no relatório final.

A Copa de 2026 coloca o futebol diante de uma escolha. Ele pode continuar vendendo sustentabilidade como decoração de evento ou pode usar sua potência cultural para mudar práticas. Pode tratar o clima como problema técnico de organização ou como uma questão de cuidado, justiça e responsabilidade pública.

No fim, a pergunta não é se ainda podemos celebrar o futebol. Podemos, e talvez precisemos. A pergunta é se aceitaremos celebrar como se o mundo ao redor do estádio não estivesse mudando.

A bola continua rolando. Mas o campo já não é o mesmo.

Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.
Sair da versão mobile