Por Mauricio Abbade,

Todas as cadeiras estão ocupadas por pessoas de diferentes nacionalidades. O verde, azul e amarelo captam o olhar daqueles que passam por um dos pavilhões da Conferência Mundial do Clima de 2018, a COP24, que ocorre em Katowice, na Polônia. O estande remete aos ideais brasileiros: diversidade e tropicalismo.

Retardar o aquecimento global é um tema amplamente discutido pelos corredores, pavilhões e salas de negociação daqui. É neste cenário que novos métodos para frear os efeitos estufas e a emissão de carbono são expostos.

Entretanto, inovação tecnológica, diferente do que a maioria das pessoas pensam, não é a única solução. Sônia Guajajara, a primeira mulher indígena a participar de uma chapa eleitoral no Brasil, afirma que “as pessoas buscam muito a solução em novas tecnologias, enquanto o que se precisa é investir na população local, nos povos que naturalmente já cuidam e preservam a natureza”.

O documentário “Quentura” destaca-se na programação do pavilhão brasileiro. Além da exibição do filme, acorreu um debate entre as mulheres que participaram da gravação. A película perpassa por três regiões amazônicas enquanto coleta depoimentos de mulheres indígenas. Embora de diferentes etnias, todas são afetadas pelas mudanças climáticas.

Sônia Guajajara, a primeira mulher indígena a participar de uma chapa eleitoral no Brasil participa de painel na COP24. | Crédito das fotos: Mauricio Abbade

A quantidade de peixe diminuiu. Os abacaxis apodrecem antes da colheita. E incêndios florestais acontecem com mais frequência e destroem áreas ricas em biodiversidade.

Almerinda Ramos de Lima, da federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, reitera a importância de estar em uma conferência da Nações Unidas: “isso é uma oportunidade de mostrar para o mundo que nós, mulheres, existimos, que estamos lá, na Amazônia, cuidando do nosso território e, principalmente, do nosso planeta”.

De acordo com relatório divulgado pelas ONGs WRI (World Resources Institute) e RRI (Rights and Resources Initiative), florestas e terras indígenas abrigam 38,7 bilhões de toneladas de carbono em todo o mundo. Se destruídas, o CO2 lançado ao ar seria maior que as emissões globais de veículos durante 29 anos. Além disso, o desenvolvimento dos povos originários não desmata. O modo de viver deles, por conta disso e outros fatores, é capaz de retardar o aquecimento global.

Os relatos são sensíveis, poéticos e evidenciam a presença da preservação no modo de vida de mulheres indígenas brasileiras. Nara Baré, líder indígena que também estava presente no painel, diz que “nosso legado, como mulher indígena, é proteger, cuidar e preservar”. E complementa sua fala: “nós, indígenas, não somos empecilhos ou um atraso para a soberania nacional do Brasil, ao contrário disso, viemos contribuindo para o avanço do mantimento das terras brasileiras.”

No caso do Brasil, só as terras formalmente demarcadas capturam 14,69 milhões de toneladas métricas de carbono, de acordo com o mesmo relatório. “Os povos indígenas e a sociedade civil como um todo está ameaçada, o nosso conhecimento junto com a nossa cosmovisão podem, sim, contribuir para o bem-viver do planeta”, diz Almerinda Ramos de Lima.

*Mauricio Abbade é repórter correspondente do CicloVivo na COP24, Conferência Mundial do Clima que acontece em Katowice, na Polônia.

Arquiteta e urbanista com formação em desenvolvimento sustentável pela University of New South Wales, em Sidney, Austrália. Fundou o CicloVivo em 2010 com a proposta de falar sobre sustentabilidade de forma divertida e descomplicada. Acredita que o bom exemplo é a melhor maneira de influenciar pessoas e que a simplicidade é a chave para vivermos em harmonia.