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Plantar árvores reduz custos com o tratamento de água

Na Grande Vitória (ES), restaurar apenas 2,5 mil hectares pode gerar economia de R$ 92,9 milhões.

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Foto: Dave Hoefler | Unsplash
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Um novo relatório produzido pelo WRI Brasil em parceria com Fundação Grupo Boticário, TNC, Ibio, UICN, Femsa e Capital Natural mostra que a restauração de apenas 2,5 mil hectares de pastagens degradadas ao longo das duas principais bacias que abastecem a população da Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV) pode gerar uma economia de R$ 92,9 milhões nos custos de tratamento de água em 20 anos. Para tanto, seriam necessários investimentos de R$ 34,1 milhões, deixando um saldo positivo de R$ 58,8 milhões. O projeto apresentaria um valor presente líquido (VPL) de R$ 11,1 milhões, taxa interna de retorno (TIR) de 13,9% e tempo de retorno de 11,6 anos – valores compatíveis com investimentos em infraestrutura convencional.

Estes resultados estão em linha com os que foram obtidos em estudos semelhantes feitos no Sistema Cantareira, em São Paulo, e no Guandu, no Rio de Janeiro. Em São Paulo, o WRI Brasil descobriu que a restauração de 4 mil hectares levaria a uma economia total de R$ 338 milhões que, descontados os investimentos, geraria um benefício líquido de aproximadamente R$ 219 milhões em 30 anos. No Rio de Janeiro, a restauração de três mil hectares de pastagens com alto grau de erosão resultaria em uma economia total de R$ 259 milhões em custos de tratamento e com benefício líquido de R$ 156 milhões, deduzindo-se os investimentos. Nas três regiões metropolitanas analisadas pelo WRI Brasil, o retorno sobre o investimento é compatível com o que é obtido na infraestrutura convencional.

A captação de água na RMGV é feita diretamente nos rios, que recebem grandes quantidades de sedimentos carreados pelas chuvas. Isso exige que a Cesan, empresa de água responsável pelo abastecimento da RMGV, tenha gastos consideráveis com produtos químicos utilizados no tratamento da água e, em casos extremos, suspenda temporariamente suas operações. Florestas, por sua vez, absorvem o impacto das chuvas e auxiliam na estruturação do solo (via sistemas radiculares), diminuindo a erosão e, por consequência, a turbidez da água. Elas também melhoram a regulação dos fluxos hídricos, a manutenção do microclima, a proteção de polinizadores, a conservação da biodiversidade e o sequestro de carbono.

A Barragem dos Imigrantes, que está sendo construída pela Cesan no rio Jucu para melhoria da segurança hídrica na região, ajudará a reter esses sedimentos. Mas ela não altera a dinâmica de erosão do solo e consequente carreio de sedimentos que, com o tempo, reduzem a própria capacidade de armazenamento do reservatório e elevam custos de manutenção e manejo de assoreamento em R$ 5 milhões ao longo dos 20 anos. A restauração florestal de 1.600 hectares de pastagens degradadas na Bacia do Jucu reduziria a descarga de sedimentos para o reservatório em aproximadamente 1.800 toneladas por ano, equivalente a uma carga de 40 caminhões-caçamba por ano.

Os benefícios econômicos totais da economia de custos de tratamento de água, depreciação evitada e custos de dragagem e disposição desses sedimentos seriam de R$ 65,9 milhões em 20 anos, 50% maiores do que os benefícios alcançados em custos de tratamento de água fornecidos apenas pelo reservatório.

Foto: Ademir Ribeiro | WRI Brasil

Programas de reflorestamento podem ser aliados

O Espírito Santo tem uma vantagem adicional quando o assunto é restauração florestal: trata-se de sua rica experiência obtida pelo Programa Reflorestar, iniciativa estadual de conservação e restauração que ajuda a recuperação dos recursos hídricos e apoia os proprietários rurais a cumprir a legislação ambiental. O programa é atualmente o principal executor da restauração florestal no estado e une forças a outros programas estratégicos liderados no Espírito Santo, como o Programa de Gestão Integrada das Águas da Paisagem e o projeto Florestas para a Vida.

Essas iniciativas já planejam investir cerca de R$ 190 milhões na Bacia do Jucu e R$ 134 milhões na Bacia do Santa Maria do Vitória, que atendem a RMGV, para restauração florestal de nascentes, matas ciliares e áreas de recarga de aquíferos. Os investimentos necessários para a restauração de 2.500 hectares propostos pelo estudo do WRI Brasil em seriam equivalentes a um terço do planejado para as bacias hidrográficas por meio dessas três iniciativas: o custo total do projeto de infraestrutura natural, de R$ 34,1 milhões, corresponde a pouco mais de 10% do orçamento previsto pelo projeto Florestas para a Vida ao componente destinado à recuperação de nascentes, matas ciliares e zonas de recarga de aquífero.

Outra vantagem de combinar os esforços Programa Reflorestar com a gestão hídrica da região metropolitana é a possibilidade de integrar proprietários rurais à iniciativa – e de forma mais atrativa do que ocorre atualmente. Hoje, o Programa Reflorestar paga entre R$ 267 e R$ 281 por hectare por ano em forma de PSA. No entanto, a partir de entrevistas locais, estimou-se que um proprietário de terras poderia ter uma renda equivalente a R$ 420 por hectare por ano se mantivesse a atividade pecuária. O estudo mostrou que mesmo que os valores pagos pelo Programa Reflorestar fossem aumentados para refletir o custo de oportunidade da pecuária, o investimento em infraestrutura natural se manteria viável e economicamente promissor, com VPL de R$ 7,9 milhões.

Abastecimento na Grande Vitória e irregularidade das chuvas

Desde 2014, a RMGV sofre com longos períodos de seca, interrompidos por chuvas torrenciais, o que representa um enorme desafio para a gestão da água.

Entre 2014 e 2020, a região sofreu com secas severas e prolongadas. Durante quatro anos consecutivos – entre 2014 e 2017 – a média anual de chuvas foi inferior a 65% da média histórica e, em 2015, o pior ano da crise, choveu apenas 730 milímetros quando o esperado era de 1.500 milímetros.

Já durante os anos de 2018 a 2020, a precipitação anual na RMGV oscilou entre 5% e 10% acima da média, mas ainda assim insuficiente para recuperar os déficits dos anos anteriores. Além disso, as chuvas foram muito mal distribuídas, com 679 dias sem chuva e 48 dias de chuvas fortes (acima de 30 milímetros).

Foto: Ademir Ribeiro | WRI Brasil
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Enquanto secas severas impõem sérias restrições ao bem-estar e à economia – exigindo racionamento, parando indústrias e arriscando a produção agrícola -, chuvas fortes causam desastres, como deslizamentos de terra e inundações, desalojando e desabrigando populações vulneráveis, aumentando a proliferação de doenças infecciosas e, em casos mais graves, causando mortes.

Entre 2003 e 2018, o estado do Espírito Santo registrou 154 eventos de desastres naturais, sendo 52% relacionados a secas e 45% a chuvas, em sua maioria deslizamentos de terra e enchentes. As perdas totalizaram US$ 830 milhões somente durante o período 2016-2017.

Os sistemas de tratamento de água também são impactados por eventos meteorológicos. As secas levam ao aumento dos custos de bombeamento nos reservatórios ou na captação de água, enquanto as chuvas fortes podem levar a um aumento acentuado no custo de tratamento de turbidez e poluentes e podem até implicar na paralisação do sistema.

O que é infraestrutura natural

Infraestrutura natural é o conjunto de ecossistemas íntegros, manejados ou restaurados estrategicamente planejados e gerenciados para habilitar ou reabilitar a paisagem a fornecer serviços ambientais essenciais ao desenvolvimento das atividades econômicas e ao bem-estar da comunidade. No estudo do WRI Brasil, a implementação de infraestrutura natural para água é entendida como a restauração de florestas e outras formas de vegetação nativa em áreas atualmente ocupadas por pastagens com altos níveis de degradação – indicadas pela perda de solo por erosão e sedimentação -, com intuito de recuperar a capacidade da paisagem de entregar água com menor turbidez aos sistemas de tratamento de água.

O relatório do WRI Brasil prova que a combinação de infraestruturas natural (verde) e convencional (cinza) tem desempenho superior ao gerenciamento da poluição de sedimentos que considere apenas a convencional. As concessionárias locais como a Cesan poderiam se beneficiar financeiramente da implementação de estratégias de infraestrutura natural, e os Comitês das Bacias Hidrográficas do rio Jucu e do rio Santa Maria da Vitória também poderiam alcançar seus objetivos de maneira mais eficiente. O Programa Reflorestar pode ser um agente fundamental no desenvolvimento da infraestrutura natural, enquanto a AGERH pode se firmar como agente de comando de ações conciliadoras no bom uso dos recursos hídricos e boas práticas ambientais.

Medidas para implementar infraestrutura natural para água – considerada uma das Soluções Baseadas na Natureza (SbN) – são essenciais para a resiliência das populações urbanas. Aproximar tomadores de decisão dos municípios da Região Metropolitana da Grande Vitória podem somar a esses esforços. Iniciativas como a Aliança Bioconexão Urbana e o Cities4Forests mostram que governos municipais, empresas, ONGs e outros atores podem se engajar com ações que promovem a conservação e restauração das florestas para combater as mudanças climáticas, proteger as bacias hidrográficas e a biodiversidade e melhorar o bem-estar humano.

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