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Estudo aponta Brasil como o 4º maior emissor histórico de CO2

Com desmatamento e mudanças no uso da terra incluídos em análise, Brasil entra para o ranking dos maiores emissores de CO2 do mundo

fogo Amazônia
Monitoramento de Coluna de fogo avança sobre floresta degradada em Porto Velho, Rondônia. Foto: Christian Braga | Greenpeace
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Em carta enviada a Joe Biden, o presidente do Brasil afirma que o Brasil é responsável por “apenas 1% das emissões históricas” de CO2. Infelizmente, esta afirmação não é verdadeira.

Um artigo publicado nesta terça-feira, dia 5 de outubro, pelo portal especializado em clima Carbon Brief confirma que somos o quarto país que mais contribuiu para as emissões históricas de CO2, depois de EUA, China e Rússia.

Entre os anos de 1850 e 2021, o Brasil foi responsável por cerca de 5% das emissões, principalmente por causa do desmatamento descontrolado.

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Foram incluídas na análise do Carbon Brief as emissões provocadas pela destruição de florestas e de mudanças no uso da terra, atualizando um estudo feito pela própria organização em 2019. Nas análises anteriores, eram consideradas apenas as emissões de combustíveis fósseis.

Uso da terra e combustíveis fósseis

Os EUA lideram o ranking com mais de 509 bilhões de toneladas (Gt) de CO2 liberadas desde 1850 e respondem por cerca de 20% do total global. A China ocupa o segundo lugar no ranking, com 11%, seguida por Rússia (7%), Brasil (5%) e Indonésia (4%).

A análise do Carbon Brief mostra que a atividade humana foi responsável pela emissão de aproximadamente 2,5 trilhões de toneladas de CO2 na atmosfera desde 1850, um número que se alinha com os apresentados pelo IPCC e pelo Global Carbon Project.

Essas emissões correspondem a um aquecimento em torno de 1,13oC – e as temperaturas em 2020 atingiram cerca de 1,2oC acima dos níveis pré-industriais.

“Embora a grande maioria das emissões de CO2 hoje venham da queima de combustíveis fósseis, atividades humanas como o desmatamento tiveram uma contribuição significativa para o total. As mudanças de uso da terra equivalem a quase um terço do total acumulado, com os dois terços restantes (1,718GtCO2) advindos de combustíveis fósseis e de cimento.”

Carbon Brief
Foto: Felipe Werneck | Ibama

Brasil entre os maiores emissores do mundo

Com o uso da terra sendo levado em conta, a responsabilidade histórica do Brasil em relação às emissões de CO2 aumentaram e o país entrou no topo do ranking. O mesmo vale para a Indonésia, considerada o 5º maior emissor histórico.

Em abril, o Fakebook.eco, portal que analisa afirmações e notícias sobre sustentabilidade e aponta as que não são verdadeiras, já havia desmentido afirmação de Jair Bolsonaro em carta ao presidente dos EUA, Joe Biden, de que o Brasil “é responsável por apenas 1% das emissões históricas de gases do efeito estufa, e menos de 3% do total corrente de emissões globais”.

Segundo o portal, esta ideia de que o Brasil é um dos países que menos contribuíram para o aquecimento verificado vem de um estudo da década de 1990, apresentado por cientistas do governo brasileiro na conferência de Kyoto, em 1997. Mas, além de estar desatualizada, esta afirmação considera apenas o gás carbônico emitido por combustíveis fósseis.

Desmatamento e emissões no Brasil

O desmatamento é uma realidade na história do Brasil. Durante os séculos XIX e XX, o desmatamento atingiu a Mata Atlântica. O bioma tem hoje entre 12% e 17% de área coberta com florestas em bom estado de conservação. Em outras avaliações, considerando qualquer tipo de floresta ou formações não florestais, este índice varia de 24% a 29%.

A partir do final dos anos 1970, o desmatamento da Amazônia passou a responder por grande parte das emissões brasileiras. Apenas no final dos anos 1980, mais de 300 mil Km² de floresta foram destruídos.

Foto: Mayke Toscano | Secom-MT

Estudos posteriores têm mostrado um quadro bem diferente: em 2014, por exemplo, um grupo de cientistas calculou todos os gases e incluiu uso da terra, mostrando que o Brasil tinha a quarta maior contribuição histórica absoluta para o aquecimento global e a sétima maior contribuição per capita.

Em 2015, o físico Luiz Gylvan Meira Filho, autor principal do estudo brasileiro original, mostrou no Observatório do Clima um cálculo revisado segundo o qual a contribuição histórica do Brasil para o aquecimento verificado em 2005 era de 4,4% se considerados todos os gases.

Cenário atual

Com o desmatamento batendo recordes, as emissões brasileiras de gases de efeito estufa também não param de subir. Em 2019, primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, as emissões do país subiram 9,6%, de acordo com o SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa) divulgado pelo Observatório do Clima.

Na ocasião Tasso Azevedo, coordenador do SEEG, já havia feito um alerta. “Estamos numa contramão perigosa. Desde 2010, ano de regulamentação da lei nacional de clima, o país elevou em 28% a quantidade de gases de efeito estufa que despeja no ar todos os anos, em vez de reduzi-la”.

“O aumento significativo nas emissões brasileiras foi capitaneado pelas elevadas taxas de devastação na Amazônia e pelo descaso com a política ambiental demonstrada no primeiro ano da administração Bolsonaro”, disse Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

“O aumento das emissões não somente impacta nossos compromissos internacionais como ameaça a reputação do nosso agronegócio.”

Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia
Queimada e vista em meio a área de floresta próxima a capital Porto Velho. Foto: Bruno Kelly | Amzonia Real | Flickr (cc-by-2.0)

Amazônia como fonte de carbono

Em julho de 2021, as previsões de que o cenário poderia piorar ainda mais se confirmaram. Um estudo publicado na Nature mostrou que a Amazônia passou a ser fonte de carbono devido às queimadas, ao desmatamento e as mudanças climáticas.

A maior floresta tropical da Terra, que nas últimas décadas atuou como uma importante sequestradora de gás carbônico, passou a emitir mais CO2 do que é capaz de absorver.

A pesquisa sobrevoou a floresta com pequenos aviões em quatro locais na Amazônia brasileira de 2010 a 2018 para medir os níveis de emissões de carbono na atmosfera. Os estudos anteriores que já indicavam que a região estava se tornando uma fonte de CO2 foram baseados em dados de satélites, porém esses podem sofrer com as obstruções de nuvens. Com os pequenos aviões, foi possível obter dados mais precisos a uma altura de até 4.500 metros.

Os dados revelaram que incêndios produziram cerca de 1,5 bilhão de toneladas de CO2 ao ano, com o crescimento da floresta removendo 0,5 bilhão de toneladas. Para se ter uma ideia, o 1 bilhão de toneladas restante na atmosfera é equivalente às emissões anuais do Japão, o quinto maior poluidor do mundo.

A maioria das emissões são causadas por incêndios intencionais com o objetivo de limpar terras para a produção de carne e soja. Porém, a pesquisa mostra que, mesmo sem incêndios, temperaturas mais altas e secas significam que o sudeste da Amazônia se tornou uma fonte de CO2, em vez de um sumidouro.

Reverter este cenário é possível

Quando o estudo foi divulgado, o INPE emitiu uma nota apontando caminhos para reverter este grave cenário. “Zerando o desmatamento e as queimadas, além de reduzirmos as emissões de CO2, também aumentaria a capacidade da floresta Amazônica de absorver carbono, contribuir com aumento da chuva e redução da temperatura, que por sua vez aumenta mais ainda a capacidade de absorver carbono formando um ciclo positivo, não só para a Amazônia, também para o restante do Brasil, da América do Sul, e do Planeta, pois estamos todos interligados. Não existem paredes na atmosfera”.

Foto: Reprodução | PlenaMata
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