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Um desabafo sobre a minha primeira COP

Murilo Casagrande, diretor do Instituto Aromeiazero, conta como foi pedalar por Belém mesmo com o aviso: ‘Não venha de bike para a COP’

Published 27/11/2025
Bike crise climatica

Bicicleta durante a Marcha Pelo Clima. Foto: Murilo Casagrande

Agora que já faz alguns dias que a Carta de Belém está fechada, com avanços como a inclusão dos indicadores de adaptação e as menções aos povos originários e diversos revés, principalmente sobre a ausência do mapa para descarbonização e o gargalo cada vez mais apertado (principalmente para nós, dos países em desenvolvimento) e diversas análises mais profundas que vale procurar, quero tratar de outros pontos que talvez você não leia por aí.

Cheguei a Belém para a COP30, aluguei uma bicicleta e fui reconhecer o caminho até a green zone. Ao chegar, ouvi a frase que virou símbolo da minha experiência: “Não venha de bicicleta para a COP”. A recomendação vinha do fato de ainda não haver bicicletário — instalado só dias depois, graças à pressão de quem pedalava. Um retrato claro de como a mobilidade ativa ainda é tratada como detalhe, mesmo num evento global sobre clima, e numa cidade que é a terceira capital onde mais se pedala no país.

Logo no primeiro dia, participei de uma roda de conversa da Secretaria-Geral da Presidência com Mariana Wandarti (Cidade Ativa), Clarisse Linke (ITDP) e Simon Fan (ReDUS). Discutimos mobilidade ativa e adaptação climática, e o que levei foi a seguinte frase: “eletrificar é fácil; difícil é tirar do papel os corredores exclusivos, que não chegam a 6% do planejado para São Paulo”.

FOTO: Murilo Casagrande

Pela cidade, as “casas” das organizações sociais (e também de grandes empresas) mostraram a potência da sociedade civil. Na Casa do Sul Global, mais de cinquenta organizações debateram o futuro da filantropia. No painel “Defender direitos, construir novos futuros”, a crise ficou evidente: queda de 75 bilhões de dólares no financiamento internacional, burocratização e enfraquecimento das organizações de base. Entre outros dados preocupantes, a frase de Mestre Joelson, da Teia dos Povos, foi um sacode animador: “Pequenas coisas nos separam; grandes coisas nos unem. O clima já tem a solução: são indígenas e pretos.”

Na Casa Saberes da Amazônia, a mistura entre teoria e prática foi além: no debate sobre pobreza energética, fomos lembrados pela Renata Falzoni que o sistema de deslocamentos das cidades é um enorme desperdício de energia; pelo Valdinei Medina da Revolusolar que pagar uma conta de luz justa é levar mais comida para a mesa de milhões de brasileiros. E para fechar, uma aula sobre mandioca (ou macaxeira) com Maurício Façanha revelou a raiz como tecnologia ancestral, um saber vivo sobre tempo, trabalho coletivo e autonomia.

Voltando ao green zone (que só foi receber bicicletário na reta final do evento), tivemos uma das melhores notícias para quem pedala, no estande do Ministério do Turismo: o lançamento da Trilha Amazônia Atlântica, a maior trilha sinalizada da América Latina, com quase 500 km em 16 cidades do Pará. Além de fortalecer o turismo de base comunitária, será uma alternativa segura para peregrinos do Círio de Nazaré. E um spoiler: a ideia é que chegue até os Lençóis Maranhenses.

Bicicletada na Marcha pelo Clima. Foto: Murilo Casagrande

A Marcha Global pelo Clima também foi marcante: mais de 70 mil pessoas nas ruas, sob o sol do meio-dia, defendendo o futuro. Fechei a marcha com uma bicicletada, reforçando que eventos climáticos só fazem sentido com participação popular. Depois de COPs em países de regimes não democráticos, espero que este seja um marco para as próximas edições.

E aqui vai o desabafo: é impossível estar em todos os lugares e dar conta de todas as agendas. Entre encontros, painéis e conversas, algo sempre fica de fora. Por causa de um café que virou jantar com a nova presidente da European Cyclists Federation, perdi a programação do Espaço Ruth Costa, que tinha cinema, muita troca, comida boa e carimbó — e todo mundo na bicicletada foi categórico: “Perdeu, Murilo.” Paciência, mas foi bom ouvir que o evento estava bombando. E entre as surpresas, também ganhei a acolhida dos Coalas, uma turma que trabalha com impacto e “cuida de quem cuida”.

Murilo Casagrande, diretor do Instituto Aromeiazero. Foto: Divulgação

E sim, fui pedalando todos os dias para todos os lugares, levando uma camiseta reserva na mochila e desviando das mangas que inundaram as ruas. Se essa foi a COP com maior número de lobistas, foi também a com maior número de Artivistas. Se você não conhece o termo, são ativistas que fazem arte ou vice-versa.

Diante da resistência às mudanças, será pela arte que começaremos a nos transformar. O futuro depende de encontros que gerem autonomia e revelem novos futuros possíveis. Se o mundo quer enfrentar a crise climática, precisa começar ouvindo quem já vive as soluções.

Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.
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