A história do ser humano sobre a Terra está marcada pelo distanciamento progressivo entre homem e natureza, e consequente ruptura com processos de vida. Apesar de haver em nós uma memória celular da ligação com a Terra, vivemos como se dela não dependesse nossa sobrevivência, como se não fizéssemos parte da natureza.

Hoje  80% da população brasileira vive em centros urbanos, onde as crianças passam 90% do tempo em ambientes fechados – dentro de casa, em frente das telas, absorvidas pelo mundo digital,  em salas de aulas ou ainda em shoppings, restaurantes e cinemas, nos programas familiares de fins de semana.

Os novos hábitos transformaram o ritmo e a rotina das crianças, criando estilos de vida mais individuais, sedentários, desfavorecendo o convívio social, atividades físicas, o exercício imaginativo, e a autonomia da criança.

Quais as consequências do distanciamento da natureza para a criança?

A desconexão com o mundo natural empobrece o repertório da infância, reduz estímulos sensoriais e experiências, o que mais tarde influenciará na capacidade de auto regulação do indivíduo, na aprendizagem, criatividade, e habilidade em lidar com desafios.

Felizmente um movimento de retorno à natureza tem se espalhado pelo mundo. Muitas iniciativas estão surgindo com o objetivo de expandir a consciência e promover mudanças neste cenário, estimulando o contato com o mundo natural e mais tempo ao ar livre, resultando em inúmeros benefícios – leia aqui

Uma dessas iniciativas é o programa de Educação Ambiental ‘Meu ambiente’, realizado desde 2010 pelo Instituto Ecofuturo, por meio de uma parceria com a prefeitura de Mogi das Cruzes,  que busca apresentar a natureza como educadora.

O programa atende alunos e educadores da rede pública do entorno do Parque das Neblinas – reserva ambiental da Suzano, gerida pelo Ecofuturo. A partir deste ano esse programa passou a atender mais dois municípios – Bertioga e Suzano, ampliando o número de escolas participantes.

O objetivo deste projeto é  ampliar a visão de todos os participantes para o entorno, para o mundo natural que cerca cada um, seja na escola, em casa, na rua, no bairro, e trazer a natureza para mais perto, buscando despertar uma consciência de pertencimento.

Como desdobramento deste trabalho o Instituto Ecofuturo acaba de lançar o livro ‘Educando na Natureza’ com o intuito de refletir sobre o contato das pessoas com o meio, o potencial educador dos espaços naturais e os aprendizados gerados por essa conexão.

A criança em contato com a natureza torna-se o potencial cuidador e preservador do meio ambiente. Essa aproximação imprime registros no próprio corpo da criança, tais como o frescor à sombra de uma árvore, a sensação da brisa suave do verão, o encanto das cores das flores na primavera, do colher uma fruta no pé. A verdadeira educação ambiental se dá por meio do experienciar.

A publicação ‘Educando na Natureza’ está disponível para download gratuito. Para baixar acesse AQUI.

Precisamos resgatar os vínculos com o mundo natural,  investir na formação de um reservatório de experiências vivas e reais nos primeiros anos de vida, para assim garantir a formação de uma nova geração de guardiões da natureza e nossa sobrevivência no planeta.

Ana Lúcia Machado é pesquisadora da cultura da infância e arte na educação. Autora do blog “Educando Tudo Muda”, carrega a bandeira da educação como a única revolução capaz de transformar o mundo. Ela é autora do livro “Clarear – a pedagogia Waldorf em debate” e do projeto “Playoutside – alegria de brincar na natureza”