Por Ana Lúcia Machado

A infância é o período no qual edificamos as bases que sustentarão tudo o que virá depois. É também um período mágico, onde o brincar e a imaginação constroem memórias afetivas cheias de significado que irão perdurar por toda a existência.

Engana-se quem pensa que o começo da vida é uma etapa que fica para trás depois que viramos adultos. É um ciclo vivo, que volta, e se renova. Ecos da criança que fomos continuam a ressoar dentro de nós no decorrer da vida.

Nas palavras do romancista Franz Hellens, “a infância não é uma coisa que morre em nós e seca uma vez cumprido o seu ciclo. Não é uma lembrança. É o mais vivo dos tesouros e continua a nos enriquecer sem que o saibamos”.

São essas memórias que trazem alento e vitalidade na fase adulta. Recordações pueris que representam refúgio nos momentos mais difíceis da trajetória humana.

Além disso, acessar as memórias de infância é sinônimo de renovação, energia e criatividade. Reconectar-se com a criança interior auxilia no relacionamento e educação dos filhos. No caso de profissionais que lidam com crianças, contribui para a formação de vínculos e compreensão sobre o universo infantil.

O nascimento de uma criança é momento de renascimento dos pais. Temos diante de nós, nossa própria concepção. Ao olhar a criança, descobrimos a nós mesmos, como uma imagem refletida no espelho.

Quando a criança nasce, o ser mãe, e o ser pai, nascem juntos. À medida que o bebê vai crescendo, amadurecemos e nos desenvolvemos na qualidade de pais.

Nossa velha infância

As memórias de infância são grandes aliadas no processo de educação dos filhos. Elas dão energia e ao mesmo tempo nos tornam mais sensíveis ao universo infantil, por nos aproximar da essência da criança.

Enquanto os filhos crescem, temos a nossa frente oportunidade de viver de novo a própria infância. É um período rico de crescimento para os pais, uma vez que a maternidade e a paternidade são uma construção contínua.

Recordar a infância nos permite reviver sentimentos potentes que ajudam na tarefa desafiadora de educar. A intuição é ativada por esses sentimentos que emergem das profundezas, nos tornando mais confiantes.

Mais do que dicas de livros que sugerem como agir com os pequenos,  o que realmente precisamos é nos ancorar na sabedoria que carregamos dentro de nós por meio das próprias experiências como adultos e vivências infantis.

Podemos afirmar que as memórias de infância tem a função de guardiã e facilitadora  da infância dos filhos.

Nesta trajetória de volta à infância, é possível descobrir a existência de uma memória imaginária, livre da rigidez de fatos reais na linha do tempo, pois a infância ultrapassa esses limites e avança para uma memória reinventada, à medida que aquele que recorda não é mais o mesmo que vivenciou as experiências.  O vivido, o sonhado e imaginado se fundem, fazendo renascer a força da infância.

 

Ana Lúcia Machado é pesquisadora da cultura da infância e arte na educação. Autora do blog “Educando Tudo Muda”, carrega a bandeira da educação como a única revolução capaz de transformar o mundo. Ela é autora do livro “Clarear – a pedagogia Waldorf em debate” e do projeto “Playoutside – alegria de brincar na natureza”