A restauração florestal e a manutenção da vegetação nativa existente em áreas estratégicas das bacias que abastecem o Sistema Cantareira podem trazer resultados econômicos e ecológicos positivos para a Sabesp – empresa responsável pelo saneamento básico em São Paulo – e para todo estado.

Uma minuciosa análise feita por entidades ambientalistas nacionais e internacionais mostra que a conservação da área verde e o plantio de pelo menos 4 mil hectares de florestas, o equivalente a 25 Parques Ibirapuera e menos de 2% da área de drenagem do Cantareira, permite uma economia de cerca de US$ 69 milhões em tratamento de água ao longo de 30 anos.

O trabalho foi desenvolvido pelo WRI Brasil e o escritório internacional do WRI nos Estados Unidos, em parceria com a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, The Nature Conservancy (TNC), Fundação FEMSA, União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), Instituto BioAtlântica (IBio) e Natural Capital Coalition.

A região do Cantareira já perdeu 70% da sua cobertura de floresta original, o que representa um grave risco para a segurança hídrica. “Toda a sociedade ganha quando as agendas do reflorestamento e dos serviços hídricos se encontram”, afirma a diretora-executiva do WRI Brasil, Rachel Biderman. “Vários estudos e projetos mostram que a recuperação de florestas é uma atividade rentável para o produtor rural. Agora, estamos comprovando que traz retorno financeiro também para investidores e para as empresas de abastecimento, além de tornar o sistema de captação e tratamento de água mais resiliente às alterações do clima.”

O estudo mostra que a restauração dos 4 mil hectares e a manutenção da vegetação original reduzem, ao longo de 30 anos, a erosão do solo, diminuindo em até 36% a entrada de terra, sujeira e sedimentos nos rios que abastecem o Cantareira. Essa redução torna o tratamento de água mais barato. Segundo o estudo, nesse período, a Sabesp economizaria US$ 105 milhões, chegando a uma economia líquida de aproximadamente US$ 69 milhões. O relatório “Infraestrutura Natural no Sistema Hídrico de São Paulo”, publicado nesta terça-feira (25), estima que esse plantio de árvores nativas custaria cerca de US$ 37 milhões.

Mesmo considerando perdas inflacionárias, o retorno do investimento inicial seria, após 30 anos, de 28% – uma taxa compatível com os retornos no setor de abastecimento. O estudo também destaca que os gestores de recursos hídricos poderão conseguir serviços de abastecimento mais resilientes e mais baratos com a implementação de estratégias de infraestrutura natural.

“O material mostra que a valorização da infraestrutura verde, ou seja, das soluções baseadas na natureza, é uma das estratégias fundamentais para que as cidades brasileiras ampliem a sua segurança hídrica”, afirma Samuel Barrêto, gerente de Água da TNC Brasil. “Temos que cuidar dos mananciais e recuperar essas áreas, especialmente na Região Metropolitana de São Paulo, altamente adensada, e que há três anos passou pela sua pior crise hídrica e cujo risco não desapareceu”, explica.

Uma floresta restaurada precisa de tempo para “amadurecer” antes de atingir seu pleno potencial. Assim, o estudo também aponta para a importância de conservar a floresta existente, que já oferece diversos serviços ambientais, como a retenção dos sedimentos. “Conservar as florestas remanescentes e recuperar aquelas que foram derrubadas ao longo de anos são investimentos possíveis. Trata-se de uma alternativa que deve ser ponderada pelos gestores dos serviços hídricos de todo o país”, afirma a diretora-executiva da Fundação Grupo Boticário, Malu Nunes.

Infraestrutura natural

O investimento em infraestrutura cinza – obras de transposição, reservatórios e canais – é a principal alternativa adotada pelo poder público no Brasil para enfrentar crises hídricas. O estudo mostra que o investimento em infraestrutura verde ou natural também deve ser considerado.

O conceito de infraestrutura natural refere-se ao papel de ecossistemas íntegros, manejados ou restaurados no fornecimento de bens e serviços úteis à sociedade, aumentando a eficiência de estruturas convencionais – neste caso, o fornecimento de água. Florestas filtram poluentes e regulam o fluxo hídrico, poupando energia e insumos químicos nos processos convencionais de tratamento da água e auxiliando a disponibilidade hídrica para gerenciamento dos reservatórios. Além disso, a restauração e conservação de florestas traz outros serviços ambientais que não foram valorados no estudo, mas são de vital importância para a economia da região, como a polinização, o turismo sustentável e a regulação climática.

A Sabesp já vem atuando em projetos de infraestrutura natural com o plantio de cerca de 1,2 mil hectares de florestas em suas áreas. Agora, é preciso estimular o plantio em outras áreas da região, especialmente as identificadas como prioritárias para proteger as nascentes dos rios que abastecem o Sistema Cantareira.