Moradores da região de Valparaíso, no Chile, denunciaram produtores de abacate por causarem uma grave seca no local. Os abacates, que são massivamente exportado para a Europa, necessitam de grandes quantidades de água para garantir qualidade, e os produtores fizeram manobras ilegais que garantiam que a água dos rios e mananciais da área fossem desviados para as plantações.

Em 2011, a Dirección General de Aguas, autoridades chilenas responsável pela água, publicaram uma investigação feita via satélite que descobriu pelo menos 65 canais subterrâneos que conduziam água de rios para os hectares de abacate e na ocasião algumas das produtoras foram condenadas por uso não autorizado de água e má apropriação do recursos. Desvios como esses descobertos no estudo das imagens ainda existem na região, e são grandes causadores do desequilíbrio ambiental dali.

Plantação de abacates em Petorca, Chile | Foto: Alice Facchini

Os moradores da província de Petorca, na região de Valparaíso, lidam com as consequências da seca há anos e só têm acesso à água pelo serviço de caminhões-pipas que distribuem um produto de má qualidade para o consumo da população, e só disponibilizam 50 litros por dia para cada pessoa.

Pesquisas feitas em 2014 com a água distribuída atestou que ela não é própria ao consumo, pois a quantidade de bactérias fecais encontradas ali ultrapassam o limite legal, o que a classifica como contaminada. Como a única outra opção é comprar água engarrafada, é comum que os moradores fervam a água dos caminhões-pipas e a consumam mesmo assim, mesmo que a necessidade possa causar doenças, o que não é incomum na região.

Ameaças

À reportagem do jornal britânico The Guardian, o ativista chileno da organização ambiental Modatima, Rodrigo Mundaca relatou ter sido ameaçado pelas produtoras de abacate após denunciar o esquema de desvio de água. Segundo ele, outras pessoa que protestaram contra o desvio de água nas fazendas também foram ameaçadas, e moradores da região que trabalham para essas fazendas não denunciam o que é feito lá por medo de serem demitidos.

Plantação de abacate nas margens de um rio seco em Petorca, Chile | Foto: Alice Facchini

“E também tem as áreas pobres onde os produtores de abacate construíram igrejas, centros comunitários, campos de futebol… para conseguir o apoio das pessoas. Quando elas reclamam da falta de água, eles ameaçam cortar os benefícios e tudo volta à sua ordem”, disse Mundaca.

Outras famílias que moravam na região escolheram se mudar em busca de oportunidades de saúde e emprego, pois até pequenos produtores da área tiveram prejuízos por causa da falta de água e perderam seus sítios.

Exportação

A maior parte dos abacates produzidos naquela área são exportados para a Europa. Só no Reino Unido, mais de 21,5 toneladas do produto foram importados do Chile em 2017, 27% a mais do que o total importado no ano anterior. 67% desses abacates eram da região de Valparaíso.

Os maiores consumidores destes produtos são as grandes redes de supermercado que, ao serem informados sobre as acusações feitas aos produtores da região, afirmaram que só importam de fazendas licenciadas e com garantias ambientais, mas que iriam investigar qualquer irregularidade no processo de produção do fruto.

Emily Santos é aluna de Jornalismo, tem paixão por animais, pela natureza e por livros. Caçula de seis irmãos, criada na Bahia, ela retornou à metrópole paulistana para cursar faculdade e descobrir novos horizontes.