A questão do lixo eletrônico é um problema global. Mas, ao que parece, alguns países estão jogando sujo na busca por soluções. Um estudo financiado pela EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) revelou que a Europa está enviando uma quantidade absurda de seus resíduos eletrônicos para a Nigéria.

Estima-se que 12,3 milhões de toneladas de eletrônicos sejam descartados anualmente nos países da União Europeia. Imagine essa quantidade entrando aos pouquinhos em um país cujo PIB é o maior da África, mas a maior parte de sua população ainda vive na pobreza extrema.

Como acontece

A estratégia, de acordo com estudo da Universidade das Nações Unidas, é enviar os eletrônicos dentro de carros usados. Cada espacinho extra no automóvel é ocupado pelo material. Os carros, que até são uma importação desejada, chegam na cidade de Lagos com este ingrato “bônus” de substâncias perigosas.

“A importação de UEEE em veículos é econômica para os carregadores porque ocupa um espaço valioso durante as remessas”, afirma o professor Percy Onianwa, Diretor da BCCC Africa (Centro de Coordenação da Convenção de Basiléia).

Há outras rotas de entrada no país, como contêineres, mas esta é a principal, onde são provenientes quase 70% do total de lixo.

Quantidade de lixo

Segundo o estudo, 60 mil toneladas de lixo eletrônico chegaram à Nigéria em 2015 e 2016. Destes, 77% eram provenientes da União Europeia, o restante eram principalmente dos EUA e da China.

O que entra

Por peso, TVs LCD e monitores de tela plana compunham a maior categoria (18%)  importada. Mais da metade (55%) não funcionavam e logo são considerados resíduos.

A segunda maior categoria – TVs CRT e monitores CRT (14%) – é formalmente proibida de importar. Máquinas fotocopiadoras compostas por 13%, frigoríficos a 12%, CPUs de locais de trabalho 7%, aparelhos de ar condicionado, colunas de som e máquinas de lavar roupa, 6% cada, impressoras 5% e DVDs 4%.

Mais de 60% do lixo importado em contêineres foram declarados, oficialmente, como bens de consumo ou objetos pessoais. Enquanto o que era importado em veículos usados, em sua maioria, nem sequer era declarado.

Pode consertar, mas essa não é a questão…

O relatório observa que alguns dos dispositivos podem e serão reparados na Nigéria. No entanto, exportar e importar aparelhos eletrônicos que não funcionam é ilegal nos termos da Convenção de Basiléia e também da Diretiva de Remessa de Resíduos da União Européia. “Quase todos os importadores ou seus agentes são nigerianos, dos quais 80% estão localizados dentro da metrópole de Lagos”, acrescenta o co-autor Olusegun Odeyingbo da UNU.

O relatório, que pode ser lido na íntegra aqui, é fruto de um estudo de dois anos. Os pesquisadores ressaltam que os volumes reais de importação ilegal de eletrônicos são provavelmente mais altos do que o estimado. Também alertam que é preciso que outras pesquisas do tipo sejam feitas em outras partes do mundo para entender a magnitude e dinâmica dessas importações e exportações. Além da EPA, a pesquisa foi também financiada pelo Ministério de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha.

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