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Produção de mel em penitenciária ajuda a reinserir presos e preservar abelhas nativas

A unidade do Pará é a primeira a trabalhar com a criação de abelhas das espécies uruçu amarela e cinzenta.

2 de janeiro de 2017 • Atualizado às 13 : 12
Produção de mel em penitenciária ajuda a reinserir presos e preservar abelhas nativas

Depois de retirado das melgueiras, o mel já é considerado próprio para o consumo. | Foto: Anderson Silva/Ascom Susipe

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Há dois anos, o projeto de meliponicultura – criação de abelhas sem ferrão -, está expandindo a produção dentro da Colônia Penal Agrícola de Santa Izabel (Cpasi). No Pará, a Colônia é a primeira unidade da Superintendência do Sistema Penitenciário do Estado (Susipe) a trabalhar com a criação de abelhas das espécies uruçu amarela e cinzenta, sem ferrão, e já reúne mais de cem mil abelhas das duas espécies.

O trabalho é realizado por seis detentos que participam do Projeto Nascente, cujo objetivo é aumentar a oportunidade de trabalho para os internos do regime semiaberto, oferecendo capacitação técnica no campo da agricultura familiar.

Segundo Charles Barbosa Pereira, técnica agrícola da unidade, neste ano a produção será superior a 28 mil litros de mel, com a colheita realizada nos meses de setembro e dezembro. As caixas usadas na produção são confeccionadas por internos do Centro de Recuperação do Coqueiro (CRC).

Na Cpasi, a criação é feita dentro dessas pequenas caixas porque as abelhas, nativas do Brasil, não constroem colmeias. Separadas em três compartimentos, onde vivem até dez mil abelhas, as caixas possuem ninho, sobreninho e melgueira. São 40 colmeias instaladas em uma área de mata fechada, para que as abelhas possam ficar em um lugar calmo e protegido do sol. A produção fica por conta das campeiras, abelhas que coletam o néctar.

Foto: Anderson Silva/Ascom Susipe

Foto: Anderson Silva/Ascom Susipe

Espécies nativas

Segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), as abelhas sem ferrão ou melíponas são espécies nativas das regiões tropicais. No Brasil, eram bastante comuns até a introdução das espécies Apis meliifera, das variáveis europeias e africanas, que passaram a dominar a produção nacional de mel.

O crescimento da apicultura comercial fez com que a meliponicultura ou criação de abelhas nativas fosse pouco a pouco perdendo força, mantendo-se apenas como tradição em algumas regiões do país. Esse quadro mudou graças aos atrativos dessa atividade, que incluem maior valor agregado do mel e facilidade no manejo das abelhas. Os recursos para meliponicultura são mais simples e, consequentemente, mais baratos. É possível reunir até 200 colmeias em um único local.

Inovação

Para o detento Francinei Pinheiro da Silva, 35 anos, que já trabalhava com a criação de abelhas no município de Bragança (nordeste paraense), a técnica dentro da Cpasi é inovadora. “Eu já tinha trabalhado com a criação de abelhas, mas era muito diferente, até porque usávamos outro tipo de abelha e a técnica ainda era muito primitiva. Vários acidentes ocorriam e o trabalho era muito complicado. Aqui é bem mais fácil. Usamos equipamento de segurança e tudo é feito com tranquilidade e responsabilidade”, informou Francinei da Silva.

Foto: Anderson Silva/Ascom Susipe

Foto: Anderson Silva/Ascom Susipe

“Tudo aqui é aprendizado. Os internos ajudam na manutenção, na limpeza das caixas e aprendem os tipos de abelha que existem, o que é zangão, operária, rainha, e qual a importância do espaço das abelhas. Tem um período em que tiramos todas as melgueiras, que é quando vamos fazer a colheita, e eles aprendem também como cuidar delas. Eles são orientados a ter todas as técnicas de higiene e limpeza devidas, e sobre os cuidados para usar o Equipamento de Proteção Individual (EPI), por exemplo, proteção de boca, cabelo e unhas, na hora de manipular mel, pois é um alimento consumido in natura”, ressaltou o técnico Charles Barbosa Pereira.

Demanda e preservação

Depois de retirado das melgueiras, o mel já é considerado próprio para o consumo. Com a pouca produção e grande procura, um litro de mel pode custar até R$ 100. “Como é um produto raro e muito saboroso, a aceitação no mercado é boa, por isso o preço é um pouco maior e acaba compensando a comercialização. Sem contar que a uruçu cinzenta está em extinção, e esse trabalho também serve para a preservação da espécie”, destacou o técnico agrícola.

Para Ivaldo Capeloni, diretor de Reinserção Social da Susipe, o ensino da técnica e prática é importante para a reinserção dos internos. “Muitas pessoas se oferecem para participar dos projetos e se mostram perfeitamente encaixadas em um plano de mudança de vida. Geralmente, são estas pessoas que sempre estão engajadas nos projetos e levam a sério o aprendizado e o convívio com nossas ações de trabalho e educação. Temos obtido uma crescente participação de custodiados nas nossas políticas de trabalho e educação”, garantiu o diretor.

“Quando eu sair daqui, vou voltar para Bragança e tenho certeza que minha vida vai mudar com tudo o que eu tive oportunidade de aprender aqui. Vou poder ganhar meu dinheiro honestamente, fazendo uma coisa que eu gosto de fazer e que já trabalho há muito tempo. Eu nem imaginava que só com a criação de abelhas eu poderia sustentar minha família e viver bem”, declarou Francinei Pinheiro da Silva.

Por Guillianne Dias/Ascom Susipe

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