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Mãe Terra divulga carta aberta sobre venda à Unilever

Muitos consumidores estão defendendo o boicote à marca.

10 de outubro de 2017 • Atualizado às 15 : 39

Foto: Divulgação/Mãe Terra

Mãe Terra divulga carta aberta sobre venda à Unilever
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Na semana passada, a Unilever anunciou a compra da empresa brasileira de alimentos naturais e orgânicos Mãe Terra. A notícia caiu como uma bomba para muitas pessoas que conhecem a marca e foi alvo de críticas nas redes sociais.

Entre as reclamações mais comuns, os consumidores dizem que a companhia perderá sua essência, testará produtos em animais e alguns estão até defendendo o boicote. Criada em 1979, a Mãe Terra reagiu às especulações publicando uma carta aberta.

Manter o compromisso de não realizar testes em animais e produzir produtos sem transgênicos e aditivos artificiais é um dos sete pontos levantados na carta, que você pode conferir na íntegra abaixo:

“Amigos e consumidores da Mãe Terra,

Esta semana é um marco na nossa história. Acreditem, foi muito difícil tomar uma decisão de “casar” a Mãe Terra. Sempre fui resistente a esta ideia. Tinha preconceito com empresas grandes e, principalmente, receio que tirassem o que temos de mais precioso: nossa alma.

Escrevo assim esta carta aberta para compartilhar com vocês as razões que me levaram a seguir neste “casamento” da Mãe Terra com a Unilever. Para tanto, acho importante “conectar os pontos” que me fizeram chegar a esta decisão.

Tudo começou com a horta da minha mãe, onde ainda criança me apaixonei pelos alimentos orgânicos e pela terra. “Nós somos o que comemos” foi um mantra que aprendi cedo. Nos primeiros anos de faculdade de administração me sentia inquieto por entender que estava apenas “replicando o sistema”. Buscava um sentido maior para minha vida e, com então 20 anos, viajei para um Mosteiro Zen para o meu 1º retiro de meditação. Olhando para trás, uma das principais intuições que tive no Mosteiro foi entender que a mudança que queria fazer no mundo não estaria lá na “montanha”, mas sim, “dentro do sistema”. A minha 2ª intuição no mosteiro foi sentir que talvez minha missão pessoal fosse aplicar o princípio do “caminho do meio” dentro de uma empresa. Estudando o poder das empresas no mundo, sentia que a grande força motriz de transformação de nossa sociedade teria que ser pelas empresas. Naqueles anos juvenis e idealistas, sonhei em criar uma empresa que pudesse prosperar, crescer, mas que também tivesse um propósito maior. Me formei, aprendi a “jogar o jogo” trabalhando em empresas grandes, trabalhei no Whole Foods nos EUA, empreendi em outros negócios. Até que 10 anos atrás comecei a concretizar minha jornada pessoal na Mãe Terra, uma empresa com um propósito autêntico. É possível lucro com propósito? Sempre achei que sim. A Mãe Terra vem tentando seguir neste caminho.

Esta minha história se conecta diretamente com a escolha da Unilever. Por quê?

  1. A Mãe Terra precisa de ajuda na nossa missão de democratizar o consumo de produtos naturais e orgânicos que cuidem das pessoas e do planeta. Sempre quis quebrar o paradigma que comida de qualidade e orgânica “é só para gente rica”. Sendo “nicho”, não chegaríamos a lugar nenhum. Pela realidade dura do mercado, compreendi que, sozinhos, seria difícil criar um futuro maior para a Mãe Terra. Precisávamos de apoio e recursos para levar nossos produtos e a nossa verdade para muito mais gente. Pra “casar”, não queria que fosse um investidor financeiro com uma visão de curto prazo, eu tinha que SENTIR que este parceiro entenderia e manteria nossa essência no longo prazo.
  2. A Unilever é uma empresa que, para mim, tornou-se referência porque de fato vem buscando fazer diferente colocando a sustentabilidade no coração da empresa. Não à toa, a empresa é reconhecida como uma das mais sustentáveis do mundo (Conheça o Plano de Sustentabilidade da Unilever).
  3. A Mãe Terra manterá 100% dos princípios que norteiam o desenvolvimento dos nossos produtos naturais e orgânicos. Ou seja, continuaremos produzindo alimentos que a gente acredita – integrais, sempre que possível orgânicos, sem transgênicos e aditivos artificias. Manteremos nossa política de não realizar testes em animais.
  4. Não basta produzir alimentos naturais e orgânicos, queremos também crescer nas nossas causas e boas práticas do Sistema B. Além do nosso comitê interno, criaremos um conselho com participação de especialistas externos de referência com o foco exclusivo na preservação e ampliação das nossas 3 causas: Conscientização alimentar, Humanização no trabalho e Cadeia de valor positiva.
  5. Temos que repensar a cadeia alimentar do mundo! Com a Unilever conseguiremos aprofundar nossas ações de construção de uma cadeia alimentar mais sustentável e orgânica. Temos muito orgulho de ajudar a criar uma cadeia alimentar orgânica, com fornecimento de agricultura familiar, cooperativas, etc. Somos hoje um dos maiores compradores de insumos orgânicos do Brasil. Como visão de futuro, queremos um modelo de agricultura sustentável que busque não apenas reduzir impacto, mas que comece a regenerar. O Brasil tem vocação de “celeiro” e a Mãe Terra quer ser um pequeno exemplo para mudança na cadeia alimentar no mundo! Sem falar no foco apaixonante de pesquisa e desenvolvimento dos ingredientes locais e da biodiversidade brasileira.
  6. Para quem nos conhece, sabe que a nossa força vem de dentro, da “alma” dos mãe -terráqueos. Nossa busca pela “humanização no trabalho” é compartilhada pela Unilever. Eu continuo a frente da Mãe Terra e estou muito motivado em fazer que nossa verdade seja levada a milhões de pessoas.
  7. Sempre me fiz esta pergunta: por que o Brasil é mais um grande exportador de “commodities” (soja, minério, laranja, carne…)? Com a Unilever poderemos, quem sabe, levar uma marca que traz o bom do Brasil para o mundo!

O discurso que o mundo está indo para um caminho “incerto” não é só mais dos “radicais”. O mundo precisa de mudanças rápidas no “modelo”. E a mudança maior só vai acontecer se for por “dentro do sistema”. Envolvendo todos, consumidores mudando suas escolhas de consumo, setor público e, com certeza, as grandes empresas. O mundo está precisando de união entre iguais e diferentes que estão em busca de um propósito maior. Com a Unilever, iremos mais longe na nossa missão.

Agradeço de coração os mãe-terráqueos, nossos agricultores, fornecedores, parceiros, minha família e os consumidores que acreditaram na Mãe Terra.

Nossa alma continuará viva.

Um abraço,

Alê Borges”

A carta foi divulgada aqui.

Redação CicloVivo

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