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Instituto monitora onça-pintada em gestação na Amazônia

A gestação é um indicativo de que o ambiente é viável para a sobrevivência e para a reprodução da espécie.

5 de abril de 2016 • Atualizado às 13 : 03
Instituto monitora onça-pintada em gestação na Amazônia

Pesquisadores fazem exame clínico e colhe amostras biológicas para análise em laboratório. | Foto: Amanda lelis

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O Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, está monitorando uma onça-pintada em gestação na Amazônia. Entre janeiro e março deste ano, foram capturadas duas onças, uma delas foi Django, uma onça preta, macho, de 54kg, medindo 1m80. A surpresa deste ano foi a captura de uma onça em gestação. Nomeada de Fofa, a onça-pintada estava com 39kg e media 1m68. Os animais receberam os colares de GPS, que registram diariamente a movimentação dos animais pela floresta na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas.

Louise Maranhão, veterinária no Instituto, afirmou que a gestação é um indicativo de que o ambiente é viável para a sobrevivência e para a reprodução da espécie. “No momento da captura, o animal apresentou boa condição corporal, e ausência de sinais clínicos evidentes para alguma doença. O animal está bem, possui alimentação no ambiente e está se reproduzido bem. Demonstra que esse é um ambiente que está favorável para sua manutenção”, disse. Com esses dois animais, os pesquisadores monitoram atualmente cinco onças na região.

“O que a gente tem observado é que temos, na Reserva Mamirauá, uma das mais altas densidades de onças encontrada no mundo. A gente estima mais de dez onças a cada 100 km².  E o que isso mostra é o potencial que as várzeas têm”, comentou o pesquisador Emiliano Ramalho, líder do Grupo de Pesquisa Ecologia e Conservação de Felinos na Amazônia, do Instituto.

 

Como se movimentam as onças da várzea Amazônica? E como a variação do nível da água, ao longo do ano, interfere na movimentação desses animais? Essas são algumas das questões que a pesquisa busca responder. “O colar permite que a gente siga os bichos e saiba onde eles estão todos os dias. O colar armazena informações a cada cinco horas e nos envia, via satélite por e-mail. E, além disso, tem um sistema transmissor VHF, que emite uma frequência de rádio, que é útil quando a gente quer achar o bicho na hora e para recuperar os colares, depois que são desarmados”, explica Ramalho.

Os colares possuem um sistema que permite que se desarmem sozinhos quando a bateria acaba, possibilitando que sejam encontrados e reutilizados posteriormente. Esse acompanhamento das onças, por meio do GPS, dura até dois anos. De acordo com o pesquisador, o monitoramento da movimentação desses animais ajuda a identificar quais as áreas de vida que utilizam.

“A área de vida é importante, por exemplo, para termos uma ideia do tamanho de áreas de conservação que a gente precisa ter, para conservar a espécie. As áreas têm variado muito em relação ao ambiente. Na várzea, estamos vendo que a ecologia da onça é muito peculiar, porque ela precisa ficar em cima da árvore, sem chão, por parte do ano. Então, entender o tamanho da área de vida é importante. Isso também nos ajuda a ver a sobreposição dessas áreas, a sociabilidade dos bichos”, completou Ramalho.

Todo o procedimento de captura é acompanhado por um médico veterinário. São instaladas armadilhas de laço, que prendem o animal pela pata, em algumas trilhas na Reserva. As armadilhas são checadas várias vezes ao dia. Durante o procedimento, é feito um exame clínico geral no animal.

“Os animais são monitorados durante a anestesia, sendo avaliados todos parâmetros vitais básicos. A gente faz o exame clínico para observar se tem alguma alteração corporal, nos dentes, nos sistemas ósseo, muscular, oftálmico, mucosas. Para ver se tem algum sinal clínico de doença, ver se o animal está bem”, comentou Louise. Também são coletadas amostras biológicas para análise em laboratório. As amostras de sangue, swab retal e pelo, para análise de parasitas e genética.

“Com essas amostras, a gente está traçando o perfil sanitário das onças e pesquisando várias doenças. Com as descrições do quadro clínico, hematológico e bioquímico, além das informações sobre prevalência e distribuição de agentes patogênicos, podemos gerar informações sobre o estado de saúde dessas onças”, contou Louise.

A veterinária ressalta que os animais monitorados pela equipe apresentaram ótimo estado de saúde. “Eles apresentaram, no momento da captura, uma ótima condição corporal, nenhuma alteração clínica evidente, além da ausência de ectoparasitas”. De acordo com Louise, as amostras biológicas estão em processo de análise.

Durante a captura, os animais também são pesados, medidos (com registro dos parâmetros de corpo, cabeça, cauda e dentição) e fotografados. As fotografias contribuem para a identificação dos animais, a partir da análise do padrão de pintas, que é como uma “impressão digital”, marca única de cada indivíduo.

A pesquisa é realizada desde 2008 pelo Instituto Mamirauá. Além da pesquisa de ecologia das onças-pintadas, essas informações são base para a manutenção do turismo de observação de onças de base comunitária, mantido em parceria com a Pousada Uacari. A região onde é realizada a pesquisa é habitada por comunidades ribeirinhas que participam e são beneficiadas pela iniciativa.

Emiliano ressalta que a proposta contribui para a mudança de ponto de vista dessa população para as onças e, consequentemente, para a conservação desses animais. “As onças, hoje, têm um valor negativo por parte das comunidades. Porque as pessoas se sentem ameaçadas por causa da onça, perdem cachorro, criação, porco, gado. A ideia é que mais gente venha fazer a observação de onças, o recurso extra que entra vai para as comunidades e para manter essa atividade de pesquisa. As pessoas ficam mais interessadas com o bicho. E o mais importante é dar tempo para as pessoas se conscientizarem”, disse.  O turismo de observação de onças é realizado durante o período da cheia, quando os animais que possuem os colares podem ser encontrados pelo sinal de rádio telemetria.

A pesquisa conta com apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), para o pagamento de bolsas.

| Foto: Amanda Lelis

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| Foto: Amanda Lelis 

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