O Sítio Pau d’Água, em Piracaia, a apenas 90 Km de São Paulo tem atraído uma legião de pessoas interessadas em “experiências de sustentabilidade”. São oficinas, cursos, palestras, eventos e festas de temas ligados à cultura alternativa: permacultura, agroecologia, bioconstrução, saúde integral e cultura popular.

Uma das atrações mais concorridas é a Festa da Lua, que ocorre em todo sábado de lua cheia ou a mais próxima dela. Basta chegar, trazer sua própria bebida e comida que serão compartilhados; quem sabe tocar, traz seu instrumento. E faz-se a roda em torno da fogueira para contemplar a lua cheia que nasce sob as montanhas da Serra da Mantiqueira, onde o Sítio está localizado. Sentar-se ao redor do fogo é um ato primordial, que conecta as pessoas para a vida em comunidade.

O responsável pelo Sítio é o permacultor Edilson Cazeloto, mais conhecido por Dirço, que tem uma história, no mínimo, curiosa. Ex-jornalista, ex-radialista e ex-professor de pós-graduação, largou tudo – quando estava no auge da carreira – para morar na roça. A vida na cidade simplesmente deixou de ter sentido para ele. Em cinco anos, ele conseguiu transformar uma área que era um imenso pasto em um oásis. Metade dos três alqueires do Sítio está sendo reflorestado (3 mil árvores plantadas nos últimos dois anos), o que gera piadas entre os moradores da região. “Quem é que compra terra para plantar árvore nativa?”, costumam dizer, mostrando que a economia local predominante, por enquanto, é a agropecuária e as florestas de eucaliptos para indústria de celulose.

Oficinas de Bioconstrução

Dirço coordena as oficinas de Bioconstrução, nome dado a um conjunto de princípios e técnicas de construção que causam o menor impacto ambiental possível. No caso, os participantes erguem as paredes de uma moradia coletiva que está sendo construída com as técnicas de pau a pique, cob e reboco natural no acabamento. O ponto alto da experiência é quando as pessoas pisam no barro para formar a massa que será colada na parede. Elas formam um círculo e começam a pisar no mesmo ritmo. Quando vêem estão se abraçando, cantando, dançando. “Se não for divertido, não é sustentável”, costuma dizer Edilson.

Foto: Sítio Pau d’ Água

Da metrópole para a roça

A história inspiradora do ex-doutor Edilson Cazeloto alimenta o desejo de uma nova geração que está fazendo a migração da metrópole para o campo, engrossando a fileira do movimento chamado Novos Rurais, como tem sido chamado às pessoas de classe média, com formação universitária, que está retornando às raízes agrícolas. São essas pessoas que estão colocando (ou desejam colocar) na prática os conceitos de sustentabilidade e mudar “as coisas que estão aí”. As experiências promovidas pelos cursos servem para reforçar esse desejo de conexão real com a Natureza e oferecem ferramentas práticas para uma vida rural. A vivência mais rais é o Guia de Sobrevivência na Roça em que as pessoas aprendem usar uma simples enxada até cortar toras com uma motoserra (sim, as podas de árvores são essenciais para a saúde do sistema).

Foto: Sítio Pau d’ Água

Agrofloresta Sintrópica

Para quem quer viver na pele de um agricultor ecológico, um dos cursos que mais fazem sucesso é o de Agrofloresta Sintrópica, um sistema que é capaz de curar um solo degradado, praticamente sem vida, e transformá-lo em uma floresta que produz alimentos de forma eficiente e otimizada. É a prova da generosidade da terra. Para realizar os cursos, o Sítio realiza parcerias com outros especialistas renomados na área em que atuam, em um sistema de economia colaborativa. O responsável pelo curso é o permacultor Bento Cruz, discípulo de mestre Tupinambá, pioneiro no desenvolvimento da Agrofloresta Sintrópica ao lado do suíco Ernst Gotsch.

Três módulos de sistemas agroflorestais já foram implantados, onde foram plantados hortaliças, frutas e madeiras nobres em um mesmo canteiro. Uma das atrações do curso são as sementes crioulas que Bento oferece para os participantes multiplicarem. As experiência que os participantes têm é inesquecível: aprendem a olhar a Natureza de maneira que nunca tinham percebido até então. “Cada planta que está no local nos traz uma informação”, afirma Bento, citando como exemplo a que a presença de braquiária pode indicar um solo ácido, isto é, com poucos microorganismos, pouca vida. Na parte prática, os participantes aprendem poda, utilizam utensílios agrícolas, fazem canteiro, adubação natural, plantam as mudas.

Foto: Sítio Pau d’ Água

Laboratório vivo

Um dos diferenciais dos cursos, que são cobrados a preços acessíveis, é que as ações realizadas ficam no Sítio, seguindo um dos princípios da permacultura. Os participantes realmente estão construindo uma moradia de verdade. Não é uma parede que será erguida apenas para o curso e depois, destruída. Os canteiros agroflorestais fazem parte do projeto de produção de alimentos. O Sítio ainda oferece cursos de fitoterapia, construção em bambu, pancs (plantas alimentícias não convencionais) e almoços de pratos típicos da região.

O Sítio Pau d’Água

O Sítio não é um hostel, nem oferece qualquer serviço de hotelaria. Os participantes dormem em um alojamento coletivo que comporta até 12 pessoas ou na área de camping para até 6 barracas. No sistema de economia colaborativa, foi realizada uma parceria com a Ecovila Clareando, vizinha ao Sítio, onde os participantes podem ficar hospedados. O valor da hospedagem gera renda aos moradores da Ecovila, fomentando a economia local. O Sítio ainda oferece um programa de voluntariado para quem quiser trabalhar em troca de hospedagem e alimentação. O tempo mínimo é de uma semana e o máximo de 1 mês.

Quando não há cursos, Dirço está cuidando do Sítio, mas sempre encontra tempo para passar um cafezinho para os visitantes.

Aqui tem um TED com seu depoimento completo contando sobre sua trajetória:

Para conferir a agenda dos cursos, acompanhe a página do Sítio no Facebook e no Instagram. Interessados nos cursos podem escrever para [email protected] ou por whatsapp: (11) 9.7130-3335

Arquiteta e urbanista com formação em desenvolvimento sustentável pela University of New South Wales, em Sidney, Austrália. Fundou o CicloVivo em 2010 com a proposta de falar sobre sustentabilidade de forma divertida e descomplicada. Acredita que o bom exemplo é a melhor maneira de influenciar pessoas e que a simplicidade é a chave para vivermos em harmonia.